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08 JUN 2026

Quantas são e onde estão as bibliotecas públicas brasileiras


Nexo - 8/6/2026 - [gif]


Autor: Lucas Zacari


País tem mais de 4.600 equipamentos, segundo dados do Ministério da Cultura fornecidos ao ‘Nexo’ via Lei de Acesso à Informação. Plano nacional prevê aumento de 50% do número de unidades até 2036

No fim de 2025, o Brasil tinha 4.691 bibliotecas públicas e comunitárias em funcionamento. A maior parte delas estava na região Nordeste, com 2.098 unidades, enquanto São Paulo era o estado com mais equipamentos desse tipo, com 667. O Nexo obteve os dados a partir de um pedido de informação, via LAI (Lei de Acesso à Informação), ao Ministério da Cultura.

Um dos eixos principais do PNLL (Plano Nacional de Livro e Leitura), aprovado em 23 de abril pelos ministérios da Cultura e da Educação, é a democratização do acesso à leitura no país, com a ampliação do número de bibliotecas públicas e comunitárias em 50% até 2036. O projeto vai no caminho contrário da tendência atual brasileira: em uma década, houve queda de cerca de 23% dos equipamentos públicos.

6.057 era o número de bibliotecas públicas em 2015 no Brasil

Neste texto, o Nexo explica qual a função social das bibliotecas e o que é preciso para que um espaço seja classificado dessa forma. Também mostra a distribuição geográfica dos acervos e analisa a atual situação dos equipamentos públicos.

O que é preciso para uma biblioteca existir

Não há uma definição clara sobre o que constitui uma biblioteca pública no Brasil. De acordo com um manifesto de 2022 da Ifla (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias) com a Unesco, esses equipamentos são "porta de acesso local ao conhecimento", que fornecem "as condições básicas para a aprendizagem ao longo da vida, a tomada de decisão independente e o desenvolvimento cultural de indivíduos e grupos sociais".

Profissionais de biblioteconomia ouvidos pelos Nexo afirmaram que é preciso que um tripé para que um espaço seja considerado uma biblioteca pública: acervo, usuários e bibliotecário. "A ideia de biblioteca extrapola uma dimensão imediatista. Não é só um organismo que está ali pra ter uma coleção organizada ou fazer empréstimos", afirmou Ivete Pieruccini, bibliotecária e professora do Departamento de Informação e Cultura da USP (Universidade de São Paulo).

Segundo o Ministério da Cultura, bibliotecas públicas são aquelas criadas e mantidas pelo Estado, seja o ente federal, estadual, municipal ou distrital. Já as comunitárias surgem a partir de iniciativas da sociedade civil (pessoas físicas, coletivos ou instituições). Também há equipamentos escolares, universitários e temáticos, entre outros.

3.748 era o número de bibliotecas públicas no Brasil em 2025

943 era o número de bibliotecas comunitárias no Brasil em 2025

Em qualquer tipo de biblioteca, é obrigatória a presença de um bibliotecário para a administração do espaço. A profissão foi regulamentada a partir da lei nº 4.804/1962, enquanto a lei nº 9.674/1998 reforçou a necessidade de um profissional formado em biblioteconomia para a função, com inscrição no conselho federal da área.

Para Maria de Fátima Oliveira Costa, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFC (Universidade do Ceará), o bibliotecário tem como função primordial auxiliar o público. "São profissionais indispensáveis para a escolha e todo processo de implantação, organização, representação e disseminação da informação e do conhecimento registrado ou não", disse ao Nexo.

Não existe uma pré-determinação sobre o que deve haver ou não no acervo de uma biblioteca pública ou comunitária. Segundo diretrizes da Ifla de 2010, o ideal é que a composição do catálogo seja de livros de ficção e não ficção para todas as faixas etárias; obras de referência (dicionários, atlas, mapas); revistas e jornais; multimídia, como CD's e DVD's; e documentos históricos.

"É necessário um acervo para começar, mas também uma condição de desenvolver a coleção, seja comprando mais livros periodicamente, renovando-os ou adequando-os aos novos leitores que se aproximam da biblioteca", afirmou ao Nexo Marília Paiva, professora do curso de biblioteconomia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Qual a sua função social

A função de uma biblioteca vai muito além do acesso aos livros, de acordo com Pieruccini. "É claro que você não apaga esse dado da importância da instituição como detentora de um acervo significativo, mas precisa ir além, precisa trabalhar numa perspectiva educativo-cultural", disse a professora da USP.

Em 1998, o bibliotecário e professor universitário brasileiro Antônio Agenor Briquet de Lemos definiu os cinco requisitos fundamentais de uma biblioteca como instituição social. São eles:
  • intencionalidade política e social
  • acervo e meios para sua permanente renovação
  • imperativo de organização e sistematização
  • comunidade de usuários, efetivos ou potenciais, com necessidades de informação conhecidas ou pressupostas
  • o espaço físico onde se dará o encontro entre os usuários e os serviços da biblioteca
Para Adriana Maria de Souza, coordenadora de biblioteconomia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), as bibliotecas são responsáveis por democratizar o bem público comum. "É um direito adquirido, não um privilégio. Ela deve ter uma diversidade cultural no acervo, produtos e serviços, acesso a diferentes públicos. Também tem a preservação da memória bibliográfica como função", disse ao Nexo.

"A maioria do que está registrado e acumulado pela humanidade, seja em artes, seja nas ciências, seja na filosofia, e até nas religiões, está registrado por meio da cultura letrada"

Marília Paiva, professora do curso de biblioteconomia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em entrevista ao Nexo

Peruccini acredita que as bibliotecas públicas e comunitárias devem ser pensadas a partir da reunião de pessoas. "É importante que seja um espaço de encontro, de produção de novos conhecimentos e de reelaboração das informações e das memórias", disse a professora da USP.

Além da coleção de livros, revistas e jornais, as unidades costumam ter recursos multimídias, por meio de computadores. Nesse sentido, elas deveriam ter sido incluídas num projeto nacional de inclusão digital, por disponibilizar o acesso à informação, segundo Carlos Henrique Juvêncio, professor do Departamento de Ciência da Informação da UFF (Universidade Federal Fluminense).

"Ter deixado as bibliotecas de lado fez com que atrasássemos muito nosso progresso nessa área. Até hoje temos reflexos disso, como a falta de habilidade geral em lidar com as funcionalidades tecnológicas para além de redes sociais", disse Juvêncio ao Nexo.

Dados da pesquisa TIC Cultura 2024, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), mostram que 65% das bibliotecas brasileiras disponibilizam wi-fi para os usuários. Já 41% desses equipamentos públicos oferecem computadores.

Espaço Geek da Biblioteca Nacional de Brasília

As bibliotecas físicas podem servir como instrumentos de alfabetização midiática, segundo Juvêncio. "Podem ser um espaço de oferta de oficinas e cursos sobre como acessar a informação desejada ou guias rápidos para a combater a desinformação, dotando seus usuários de capacidades e competências tecnológicas ampliadas", disse.

Qual a sua distribuição geográfica

De acordo com dados fornecidos pelo Ministério da Cultura ao Nexo, há 3.072 municípios com bibliotecas públicas ou comunitárias no Brasil. Esse valor representa cerca de 55,1% do total das cidades brasileiras. A capital paulista tem a maior quantidade de equipamentos, com 120 unidades.

Distribuição estadual

Apesar da maior quantidade absoluta de bibliotecas públicas e comunitárias no estado de São Paulo, o Nordeste é a região que mais mantém esse tipo de equipamento, com 2.089 unidades. Em seguida, estão Sudeste (1.502), Sul (939), Norte (321) e Centro-Oeste (274).

Concentração por habitantes

A Biblioteca Central do Estado da Bahia, em Salvador, foi o primeiro equipamento público fundado no Brasil, em 1811. "Enxergo no Nordeste uma continuidade com as políticas públicas voltadas ao ensino e à cultura, fomentando bibliotecas e facilitando o acesso da população em geral", afirmou Juvêncio.

Biblioteca Central do Estado da Bahia, em Salvador

O Nordeste também se destaca pelo número de bibliotecas comunitárias: são 471 unidades na região, praticamente a metade do total do país. "Existe muita iniciativa da sociedade civil organizada e dos coletivos sociais para preencher lacunas", disse Souza.

O estado do Ceará, que tem a maior concentração de bibliotecas por 100 mil habitantes do país, é um exemplo do uso comunitário. Das 443 unidades estaduais, 243 são geridas por organizações civis - 54% do total.

Para Costa, a dominância em quantidade não se traduz em visibilidade nacional. "A [Biblioteca Pública Estadual] do Ceará, de Fortaleza, atingiu um grau [alto] de beleza, depois de passar por algumas inúmeras reformas, e funcionamento, com uma programação e atuação mais dinâmica, embora ainda careça de ações mais eficazes, como orçamento próprio para que possa planejar e provocar voos em busca de inovação", afirmou a professora da UFC.

Setor de obras gerais da Biblioteca Pública Estadual do Ceará, em Fortaleza

Paiva disse que a falta de renovação do acervo afeta o caráter de biblioteca pública de um espaço. "Pode haver milhares ou milhões de jovens que gostariam de ler um livro que está sendo muito falado nas redes sociais, por exemplo, mas só encontram títulos velhos na biblioteca pública. Isso vai fazer com que eles percam o vínculo com a leitura literária", afirmou a professora da UFMG.

A situação atual e o futuro

Desde meados dos anos 2010, a cultura perdeu espaço nas políticas públicas federais. Uma das primeiras ações de Jair Bolsonaro (PL) como presidente da República foi o rebaixamento do Ministério da Cultura a secretaria especial da pasta do Turismo, em 2019. O ministério foi reaberto em janeiro de 2023, com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Ao negligenciar o livro e a cultura, os governos optaram por cortar o orçamento voltado às bibliotecas e aos programas de incentivo à leitura, o que resultou em menos condições de manter esses equipamentos em pleno funcionamento. Soma-se a isso a profunda crise econômica que vivemos, cujos cortes para ajustes e arrochos fiscais sempre recaem sobre a educação e a cultura como um todo"

Carlos Henrique Juvêncio

professor do Departamento de Ciência da Informação da UFF (Universidade Federal Fluminense), em entrevista ao Nexo

Além disso, o isolamento social promovido pela pandemia de covid-19 levou ao fechamento provisório ou permanente de bibliotecas ao redor do país.

O aumento de bibliotecas públicas e comunitárias no Brasil faz parte de uma das metas dos quatro eixos estratégicos do novo Plano Nacional de Livro e Leitura, aprovado em abril de 2026. São eles:
  • democratização do acesso
  • fomento à leitura e formação de mediadores
  • valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico
  • fomento à cadeia criativa e à cadeia produtiva do livro
Entre os objetivos do primeiro eixo, estão a implantação e modernização de bibliotecas públicas, escolares e universitárias, além da construção de espaços de leitura (que podem estar dentro ou não de bibliotecas). Para isso, o plano federal pretende ter uma unidade por município até 2036, especialmente em territórios socialmente vulneráveis.

"A ideia tem a ver até com o conceito de desenvolvimento sustentável, não deixar ninguém para trás, promover equidade no acesso à cultura e à educação", disse Adriana Maria de Souza, coordenadora de biblioteconomia da FESPSP.

7.036 é a quantidade de bibliotecas públicas e comunitárias previstas até 2036, caso a meta de ampliação de 50% das unidades seja atingida

Segundo o PNLL, as bibliotecas devem ter uma oferta mínima de livros em braille e em formatos acessíveis, como audiolivros. O texto, no entanto, não determina a quantidade necessária para a constituição de uma oferta mínima.

Os professores ouvidos pelo Nexo afirmaram que o PNLL é viável, apesar de ambicioso. "É sempre importante ter em mente que a abertura de bibliotecas, por si só, não garante sua existência a longo prazo. É necessário que seja uma política estatal e não de governo", disse Juvêncio, da UFF.

Paiva afirmou que o investimento em equipamentos públicos como as bibliotecas nunca foi prioridade política. "Executivo e Legislativo não trabalham juntos, nem têm visão do futuro da nação. Representam apenas interesses particulares ou de grupos específicos, que estão sempre ganhando", afirmou a professora da UFMG.

Para a implementação do PNLL, é preciso investir na profissionalização de bibliotecários e mediadores de leitura, segundo Souza. "Precisamos formar pessoas, e os cursos [de biblioteconomia] não têm formado tantas interessadas", disse a professora da FESPSP.

Iniciativas de bibliotecas digitais

Em abril de 2026, o Ministério da Educação lançou o MEC Livros, uma biblioteca digital pública e gratuita com 25 mil títulos disponíveis para empréstimo. O acervo vai desde autores clássicos, como Machado de Assis e Jane Austen, a escritores contemporâneos, como Itamar Vieira Júnior e Han Kang.

Costa, professora da UFC, afirmou acreditar que a modalidade digital "jamais anulará as bibliotecas físicas ou presenciais". Já para Souza, a biblioteca digital do MEC é uma forma de democratizar ainda mais o acesso aos livros.

A plataforma também pode atuar como uma espécie de catálogo, segundo Juvêncio. "A inabilidade para lidar com alguns aspectos da tecnologia levam as pessoas, sobretudo as mais velhas, a se manterem fiéis ao livro físico. Muitos usuários utilizarão o MEC Livros para conhecer uma obra e tentar localizá-la em uma biblioteca para acessar sua versão física", afirmou o professor da UFF.