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26 SET 2025

Januária Cristina Alves: O que dizem as pesquisas sobre uso de IA generativa na educação


Nexo - 25/9/2025 - [gif]


Autor: Januária Cristina Alves
Assunto: TIC Educação

Levantamentos mostram que escolas e professores brasileiros ainda não estão preparados para trabalhar com ferramentas de IA generativa. Sete em cada dez estudantes do ensino médio usuários de internet já as usam

“Não há um julgamento sobre o uso dessas ferramentas, se elas são boas ou ruins para o aprendizado. O que sabemos é que as escolas e professores ainda não estão preparados e estruturados para lidar com elas, mas os alunos já estão usando. É aí que estão os riscos. Sem orientação ou uso crítico, elas podem interferir substancialmente no processo de formação de toda uma geração.” Foi isso que afirmou em entrevista Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação), no lançamento dos dados dessa que é uma das maiores pesquisas sobre a educação brasileira. Ela comentava os números que revelaram que sete em cada dez estudantes do ensino médio usuários da internet já utilizam ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares, porém, só 32% receberam orientação nas escolas sobre como usar essas tecnologias. 

Não à toa, tal informação acendeu uma luz vermelha entre aqueles que já estavam preocupados com a questão de como formar professores capazes de ensinar com, sobre e por meio das mídias e da inteligência artificial em um país imerso em tantas desigualdades e dificuldades educacionais. Incluir o uso desses conteúdos na formação de cidadãos críticos e competentes já não é mais uma escolha, mas uma necessidade. No entanto, os números da pesquisa demonstram que isso ainda não é uma realidade em nosso país: apenas 59% dos educadores entrevistados relataram ter participado de alguma formação sobre IA em atividades educacionais. O levantamento descortinou um cenário que inquieta educadores de todos os segmentos, que observam seus alunos fazendo uso da IA para diversas atividades pedagógicas sem que consigam se atualizar para fazer uma mediação eficaz. Além disso, a pesquisa mostrou que, neste cenário de mudanças aceleradas, nem os buscadores tradicionais, como o Google, são uma unanimidade: 72% dos estudantes entrevistados relataram que canais e aplicativos de vídeo são tão relevantes quanto sites de busca tradicionais.

Tais transformações nos modos de se relacionar com as tecnologias digitais se refletiram em outra pesquisa importante sobre a educação, não só a brasileira, mas a dos países que compõem a OCDE (Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Em seu relatório “Education at a Glance 2025” (“Educação em Foco”) recém-publicado, no qual oferece uma visão abrangente dos sistemas educacionais nos países da OCDE e parceiros, a instituição reafirma a importância da educação digital – especialmente no que se refere à IA, que tem se revelado fundamental na formação nos níveis secundário e superior – para preparar estudantes para lidar com tecnologias emergentes e garantir resiliência no mundo do trabalho. Aliás, a pesquisa da OCDE apresenta números que validam a forte relação entre escolaridade, empregabilidade e renda. No Brasil, ter o ensino médio completo garante, em média, um salário 26% maior do que não ter (a média da OCDE é de 17%). E aqueles que têm ensino superior ganham 148% a mais do que quem tem ensino médio completo (a média da OCDE é de 54%).

Para completar o retrato da educação nacional, um dos mais relevantes exames de avaliação nas proficiências de leitura, matemática e ciências, o Pisa, vai avaliar também a alfabetização midiática e em inteligência artificial (denominada Media & Artificial Intelligence Literacy) a partir de 2029. Uma seção específica no site da OCDE, intitulada “Pisa 2029 Media & Artificial Intelligence Literacy”, descreve que o objetivo é explorar a capacidade dos estudantes de interagir criticamente e de forma ética em ambientes mediados por tecnologias digitais e ferramentas de IA. Ou seja, fazer um uso adequado desses conteúdos fará toda a diferença no futuro desses indivíduos, que estão crescendo em um mundo híbrido, em que as competências e habilidades adquiridas por meios dessas ferramentas possibilitam trafeguem com competência e segurança simultaneamente no universo on e offline. 

Todas essas pesquisas e recomendações, em resumo, focam na importância das futuras gerações em conseguir resolver problemas nos ambientes digitais, para que saibam navegar em interfaces tecnológicas, integrar variáveis diversas, interpretar dados em tempo real e tomar decisões a partir de informações que mudam constantemente. E, de posse dessas aquisições, os jovens conseguirão exercer uma cidadania mais potente, ética e sustentável. 

Por isso, a formação de educadores capazes de conduzir e inspirar seus alunos nessa tarefa deve ser prioridade não apenas dos governos e instituições educacionais, mas de toda a sociedade. Os números da TIC Educação 2024, no entanto, apontam um cenário que deixa dúvidas sobre a qualidade formativa para esse tipo de demanda: apenas 54% dos professores realizaram, nos 12 meses anteriores à pesquisa, atividades de desenvolvimento profissional contínuo voltadas ao uso de tecnologias digitais nos processos de ensino e aprendizagem. Entre eles, 82% fizeram cursos relacionados a plataformas, programas de computador ou aplicativos usados na criação de materiais didáticos. Mas, quando se trata de oferecer educação midiática e/ou digital aos alunos, 89% dos coordenadores pedagógicos afirmam que a instituição onde atuam promoveu atividades sobre temas relacionados a cyberbullying, exposição na internet, integridade da informação, privacidade e disseminação de recursos baseados em IA e algoritmos somente quando os alunos tiveram dúvidas ou entenderam que “havia necessidade”. A prática curricular ou mesmo multi/transdisciplinar não é uma estratégia adotada com frequência pelos educadores brasileiros.

Tais números confirmam também os resultados do Autodiagnóstico de Competências Digitais Docentes do Avamec (Ambiente Virtual de Aprendizagem Mão na Massa) – uma plataforma online do Ministério da Educação que oferece recursos digitais gratuitos para professores e profissionais da educação –, que revelou que os participantes têm apenas conhecimentos básicos sobre o uso de tecnologias na prática pedagógica e ainda os utilizam de forma limitada, necessitando avançar na integração das tecnologias ao planejamento e acompanhamento das aprendizagens. Isso evidencia uma necessidade significativa de fortalecimento da utilização de ferramentas digitais para a própria formação, comunicação profissional e gestão educacional. Ou seja, é necessário haver uma preparação específica para os educadores trabalharem com seus alunos a educação digital e midiática para além do que consideram “profilático” ou proteção contra danos. É preciso conceber a sua aplicação na perspectiva do desenvolvimento do pensamento crítico profundo, para que possam ensinar sobre como as mídias criam significado e representam a realidade em que vivemos, discutindo como ela é produzida e consumida – o que ainda não ocorre sistematicamente na educação formal brasileira.

O quadro que essas pesquisas descortinam nos convida a nos debruçarmos sobre o que queremos ensinar e aprender no contexto em que vivemos. As mídias são o eixo central das diversas áreas de nossas vidas: política, economia, cultura, além dos nossos relacionamentos sociais e íntimos. Resistir a formar os educadores – e toda a sociedade, portanto – para ensinar a compreensão da mídia é negar a essa nova geração o direito de usufruir de seus direitos com consciência e plenitude. É preciso uma proposta ampla e profunda para que essa educação seja pública, abrangente, sistemática e voltada para a resolução dos problemas do nosso tempo. Concordo com o advogado Ronaldo Lemos, que afirmou, em recente artigo para a Folha de S.Paulo: “…a tarefa de educar nossos filhos em face da IA é conseguir expô-los o máximo possível à vastidão, complexidade e contradições do conhecimento humano. Resistindo à sombra apaziguadora projetada pela IA”. A educação digital e midiática deve buscar ir além dos planos de aula e manuais que ensinam como fazer um vídeo ou usar a IA para pesquisar; deve ser um instrumento que favoreça, sobretudo, a educação para a vida.

Januária Cristina Alvesé mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, de um Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e um Prêmio Abril de Jornalismo. É membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação, do grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade da Escola de Comunicações e Artes e do Instituto de Estudos Avançados da USP, e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.