Para operadoras, problemas piores foram evitados
Valor Econômico - 20/10/2020 - [gif]
Autor: Rodrigo Carro
Assunto: Qualidade da Internet no Brasil
Companhias avaliam o tráfego de banda larga durante a pandemia
As operadoras de telecomunicações não negam as dificuldades relativos à banda larga provocadas pela pandemia, mas a avaliação no setor é de que, diante do aumento repentino da demanda, problemas maiores foram evitados.
De janeiro a julho, houve intenso crescimento para os provedores de banda larga fixa de médio porte, diz João Moura, presidente executivo da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp). Essas companhias avançaram de um total de 11,06 milhões de conexões no fim de 2019 para 12,78 milhões em julho deste ano, de acordo com dados da consultoria Teleco. “Um crescimento tão acentuado da base, em qualquer setor, gera uma certa fricção até se estabilizar”, diz Moura.
A adoção em massa do trabalho a distância potencializou o atrito entre clientes e operadoras, afirma o executivo. Em vez de se conectar à internet por algumas horas, depois do expediente, os usuários passaram a usar o serviço de banda larga durante todo o dia, para atividades que exigem mais velocidade e confiabilidade, como as videoconferências. “Qualquer falha simples é notada”, diz Moura.
As medidas de prevenção à covid-19 também interferiram em atividades de rotina, como manutenção de rede e instalação de infraestrutura, afirma o presidente da TelComp. “Tivemos momentos de acomodação que deixaram marcas nas estatísticas.”
Na cidade de São Paulo, por exemplo, as restrições municipais impediram que as equipes técnicas se movimentassem, cita Moura. Segundo o executivo, o problema na capital paulista foi resolvido nos primeiros 20 a 30 dias.
Sindicato que representa algumas das maiores operadoras do Brasil, o Conexis Brasil Digital (antigo SindiTelebrasil) estima em 30% o aumento médio do volume de tráfego nas redes de telecomunicações durante a pandemia. A expectativa é de que os efeitos se prolonguem, mesmo com a volta do trabalho presencial. “Essa demanda continua relativamente alta. Hábitos que a pandemia criou parece que vão permanecer”, afirma Marco Ferrari, presidente-executivo do Conexis.
Ferrari diz que pode ter ocorrido “um problema ou outro”, mas relativiza eventuais oscilações na qualidade do serviço de banda larga. “Num momento de alta no tráfego, pode haver oscilações, mas nada excepcional”, afirma. “Parece que passamos no teste.”
Dados compilados pelo Conexis indicam que os investimentos das teles no Brasil totalizaram R$ 7,2 bilhões no segundo trimestre, frente ao volume de R$ 6,9 bilhões dos primeiros três meses do ano. A soma desses desembolsos (R$ 14,1 bilhões) está acima da média registrada nos últimos cinco anos para o primeiro semestre.
Relatório do Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologia de Redes e Operações (Ceptro.br), feito com base em 4,13 milhões de medições via internet, mostra piora discreta em um dos indicadores usados para mensurar o desempenho das redes de dados - o da chamada latência - entre 1º de março e 28 de setembro. As medições abrangeram serviços prestados por 7.152 provedores de acesso à web.
Latência é o tempo que a internet leva para responder ao comando do usuário. Esse intervalo, que estava na faixa entre 25 e 27 milissegundos (ms), subiu para 28 ms, considerando a mediana (valor do meio de um conjunto de dados). “Foi uma alteração que não teve impacto para o usuário final. Não é algo perceptível”, diz Elisa Bettega, analista de projetos do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil.
A velocidade da internet também leva em conta outros dois fluxos: o de upload e o de download. O primeiro ocorre quando o usuário envia um dado pela rede. Por exemplo, ao fazer uma pesquisa no Google. O download vem no sentido contrário, quando o usuário recebe um dado. No caso, ao obter a resposta do mecanismo de busca. A velocidade de download costuma ser mais rápida que a de upload porque é nessa direção que o tráfego de dados é maior.
No período de 1º de junho a 28 de setembro, a mediana da velocidade de download foi de 23,87 megabits por segundo no Brasil, acima dos 19,98 Mbps medidos entre 1º de março e 31 de maio. “A tendência geral de melhora é uma indicação de robustez da rede”, diz Elisa. As medições são feitas por meio do Simet.br, sistema criado pelo NIC.br.
O Brasil continua distante das primeiras posições nos rankings internacionais de internet em alta velocidade. No site da companhia americana Ookla, dona da ferramenta Speedtest, o país aparece em 72º lugar em acesso móvel entre 190 países, com velocidade 28,36 Mbps em download no mês de setembro.
Com o isolamento social, os consumidores brasileiros parecem mais preocupados em aferir a qualidade do serviço prestado pelas operadoras. Se antes da pandemia o número de medições diárias realizadas via Simet oscilava entre 10 mil e 15 mil, após a disseminação da covid-19 esse número subiu para o patamar de 20 mil, no qual tende a se manter, diz Elisa, do NIC.br. “Nossa hipótese é de que as pessoas tendem a medir mais quando há percepção de degradação da qualidade”, afirma.

