Diário de Pernambuco - 13/03/2012 -
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Autor: Silvia Bessa
Assunto: Banda Larga
Uma revolução social e de costumes ganha território nos rincões do Nordeste do Brasil. O movimento saiu das lan houses das áreas pobres do interior e da capital, expandiu-se pelas zonas rurais, entrou nas casas e em comunidades. Promoveu grandes transformações coletivas, sociais e culturais. O cotidiano de famílias, associações e escolas foi alterado. Percorremos 11 mil quilômetros, nos nove estados da região, e constatamos que o Nordeste está atravessando uma nova fronteira - a fronteira digital.
O acesso a computadores, celulares e à web formou redes de comunicação no mundo real. São redes que têm a internet como ferramenta de apoio e que ligam cidadãos em torno de interesses comuns. É um fenômeno novo, estágio avançado da inclusão digital. Investigamos as mudanças provocadas em um lugar que teve quase o dobro do crescimento do número de internautas nos últimos cinco anos. O Nordeste aumentou 213%; o Brasil, 112%, diz o IBGE - embora muitos continuem excluídos. É o mesmo que desponta no topo do ranking de acessos a sites de relacionamentos virtuais (75%). Este especial multimídia mostra a inclusão para além da lan house e do Orkut, Facebook, Twitter, YouTube e outras redes sociais - algo que também já foi popularizado neste território. Gráficos e quadros ilustram o Brasil do qual estamos falando; entrevistas com especialistas e links para estudos fornecem informações extras para os interessados. Textos, vídeos e o mapa das cidades visitadas desvendam nomes e sobrenomes dos que desenham esta nova geografia sociodigital, a nova fronteira das expressivas mudanças que vêm ocorrendo no Nordeste.
A reportagem percorreu os nove estados do Nordeste. Ao todo foram 11 mil quilômetros. Entrevistamos mais de 50 pessoas. Selecionamos histórias dos seguintes municípios:
• Antonina do Norte (CE)
• Arari (MA)
• Canguaretama (RN)
• Francisco Macêdo (PI)
• Itabi (SE)
• Itapagé (CE)
• Lençóis (BA)
• Mata Grande (AL)
• Montanhas (RN)
• Mogeiro (PB)
• Nova Olinda (CE)
• Picos (PI)
• Recife (PE)
• Rodelas (BA)
• Salgueiro (PE)
• São José do Piauí (PI), povoado Atalho
• Solidão (PE), povoado Pelo Sinal
• Taperoá (PB)
• Taúa (CE)
• Umburanas (BA)
"Intemete" bate à porta
Menino novo da zona rural prefere hip hop ao forró típico. Idoso diz que, apesar de nunca ter usado computador, está presenciando transformações anunciadas por Padre Cícero, cultuado por muito nordestino do interior como o maior milagreiro e profeta das redondezas. No Sertão de Alagoas, um dos três estados mais miseráveis do Brasil, a pobreza convive com as mudanças trazidas pela onda digital.
O Sítio Serra do Sobrado, zona rural do município de Mata Grande, a 266 quilômetros de Maceió, até hoje não tem internet nas residências nem dispõe de centros comerciais para o acesso pago, as lan houses. No entanto, já reúne histórias evidenciando que caiu na rede mundial de computadores. Está ligado na era digital, reformulou o modo como vê o mundo, como se relaciona e faz parte dele. A família Moura descobriu há cinco anos o poder da web. Seu Antônio de Moura, aposentado de 92 anos, ficou surpreso quando chegou a notícia de que jornalistas de Mata Grande (AL) e de Upanema (RN), delegados de polícia e prefeitos dos dois municípios, separados por 563 quilômetros, uniram-se para trazer o irmão dele de volta para casa, depois de 15 anos desaparecido. "Foi, foi essa tal de intemete mesmo. Foi ela".
Seu Otacílio de Moura, irmão deficiente mental de seu Antônio e que fugira do sítio onde morava com a família, chegou desnorteado na delegacia de Upanema. E-mails para cá, postagens em sites para lá, e descobriu-se a sua família. A busca por ele começou por iniciativa do jornalista Anaximandro Eudson, de Upanema. Chegou até Walter Medeiros, que nasceu em Mata Grande e escreve um blog sobre a cidade (http://omatagrandense.blogspot.com/). Walter, que hoje vive em Natal, arregimentou o aposentado Germano Alves, morador de Mata Grande para ajudar na mobilização a fim de encontrar parentes de seu Otacílio. Germano contou com a bancária Valderez. Pronto, a comunicação via web levou pistas do desaparecido até o sítio.
Enfim, seu Otacílio foi resgatado pelo sobrinho Cícero numa longa viagem de ônibus. "Sou analfabeto, não sei nada do mundo, mas quando avistei meu irmão aqui no sítio vi como esse negócio de computador roda o mundo", afirma seu Antônio. "Lógico que agora sei o que é computador. Minha filha, nunca usei um computador, mas já vi mais de mili vezes. No cartório, no fórum, na casa de meus filhos."
Sobre a web, entende pouco, mas fala dela com precisão: "Nunca usei computador ou intemete, mas sei que é um equipamento que está mudando tudo. Foi do jeito que Padre Cícero disse que era". Seu Antônio é prova de que o poder da internet vai muito além das máquinas. No Brasil, no Nordeste ou no interior de Alagoas. O estado de Alagoas ainda tem baixo percentual de inclusão digital. Dos 842,6 mil domicílios do estado, apenas 132 mil possuem computador e são ligados na internet (15,7%). Ainda assim, quem da tecnologia se beneficia pode contar suas mudanças.
Vizinho de seu Antônio de Moura, o jovem Diego Lisboa faz parte de uma outra estatística. Ele acessa a internet há menos de um ano pelo telefone celular e pode ser incluído no Nordeste que se destaca pelo aumento na posse de celulares e no Brasil rural que se sobressaiu por crescer 10 pontos percentuais na aquisição desse tipo de aparelho, conforme mostra estudo do Comitê Gestor da Internet (CGI).
Conectando-se pelo celular, Diego conheceu as músicas do grupo de hip hop Black Eyed Peas, que parecem destoar em um território no qual os acordes do forró e do brega predominam. É em cima de uma pedra que Diego consegue o melhor sinal para ampliar sua lista de músicas preferidas e descobrir o que há de novo na rede. "Nesse lugar, o sinal é mais rápido", explica. Ele se acomoda sentado na pedra assim que acorda ou no final da noite. O jovem, de 15 anos, mudou o gosto musical e, pelo volume de garotos que costumam ficar ao redor dele ouvindo as batidas do grupo da Califórnia (EUA), deve influenciar as preferências dos amigos.
O Sítio Serra do Sobrado, distante meia hora do centro urbano de Mata Grande, faz parte de um mundo digital desconhecido pelos estudiosos da área de tecnologia. Pode-se dizer que este território do Sertão alagoano usufrui das novidades de um direito recém-conquistado. Desde o ano passado, a internet foi elevada à categoria de direitos humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em um relatório, publicado em 2011 (a versão original em inglês aqui), justifica a decisão. Diz o documento que acesso à web é um facilitador de outros direitos - econômicos, sociais, civis, políticos, associativos e culturais. Leva conhecimentos antes inatingíveis para alguns povos. Mata Grande e o Sítio conhecem a teoria na prática.
Princípios Gerais da ONU sobre o direito à liberdade de opinião e expressão e à internet
- O direito à informação deve ser valorizado por ser ela um facilitador de outros direitos fundamentais, inclusive econômicos, sociais e culturais, bem como direitos civis e políticos. E por permitir a participação do progresso científico, o direito à associação e de reunião
- O efeito revolucionário da internet é comparado a poucos mecanismos de desenvolvimento humano. Diferentemente dos outros meios de comunicação - como rádio, televisão, jornais e revistas - a internet representa um salto significativo para a interatividade. Indivíduos deixam de ser receptores e passam a ser editores ativos de informação
- A internet tornou-se um dos principais meios pelos quais o indivíduo pode exercer as liberdades de opinião e expressão, garantidas pelo artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O texto do artigo 19 trata do direito de o cidadão poder procurar, receber e transmitir ideias de todos os tipos
- A plataforma da internet é valiosa em particular em países onde não há imprensa independente, nos quais indivíduos podem compartilhar opiniões. É valiosa também porque os produtores de mídia tradicional podem usar a internet para expandir audiência a baixo custo. A internet permite a alguns povos um conhecimento antes inatingível
- O potencial da internet está nas suas características únicas, como velocidade, alcance mundial e relativo anonimato. A rede permite divulgar informações em tempo real e mobilizar pessoas que criaram temor entre governos e poderosos. Prova é que gerou aumento de restrições
- O uso da internet deve seguir o que é previsto em lei, como a preservação da reputação de outros, a ordem e segurança pública e respeito à proteção da criança. Da mesma forma, não deve servir para a propagação do discurso de ódio racial, religioso e difamação e outros casos como incitação ao genocídio
* Tradução livre do relatório original publicado em inglês sob o título "Report of the Special Rapporteur on the promotion and protection of the right to freedom of opinion and expression", cujo relator é Frank La Rue
Fonte: Organização das Nações Unidas (ONU) - Assembleia Geral, 16 maio de 2011
Nordeste lidera no crescimento de internautas
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o Nordeste de Diego, seu Antônio e de três dezenas de entrevistados para este especial desponta como a região com o maior percentual de crescimento na quantidade de usuários da internet nos últimos anos.
Entre 2005 e 2009, último comparativo apresentado pelo Instituto, a taxa de internautas daqui passou de 11,9% para 30,1%. O salto, correspondente a 213%, representa o dobro do brasileiro e foi revelado pela Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílio (PNAD), divulgada em 2010 (resumo aqui e resultados mais completos aqui).
Abaixo do Nordeste, aparece o Norte com 171% de aumento de usuários nesse intervalo de tempo, tendo passado de 4,46% para 22,64% de cidadãos conectados. O Nordeste líder no crescimento de internautas e destaque em outra estatística - de internautas plugados em redes de relacionamentos virtuais - mantém-se há décadas com os mais baixos indicadores de desenvolvimento humano do Brasil. Tem 53 milhões de pessoas, concentra 27,8% da população, porém responde por apenas 13,1% da riqueza nacional.
A região é sinônimo de desigualdade regional, mas também de superação - conforme desnudam as estatísticas e as histórias desta reportagem.
A oca virtual de 32 povos indígenas

Índio Tuxá de Rodelas, Júnior Thyrú Tuxá foi o primeiro da tribo a concluir uma graduação na Universidade Estadual de Feira de Santana, município a 440 quilômetros de Rodelas, interior da Bahia. Cursou História e, em seu trabalho de conclusão, escreveu sobre as "Sociedades indígenas na rota do desenvolvimento". O feito de Júnior Thyrú Tuxá, citado com orgulho pelos mais jovens, ganhou divulgação junto a 32 etnias de todo o país pelas mãos de Jandair Tuxá, espécie de repórter multimídia que fotografa, escreve e divulga a tribo onde ele e o amigo Júnior nasceram.
Jandair já escreveu mais de 50 textos somente para o portal www.indiosonline.net, a mais exitosa experiência de rede de comunicação virtual dos índios brasileiros na internet. Jandair é um dos colaboradores do site fundado no Nordeste e que hoje conta com a participação de quinze povos da região e outros 17. Por meio do indiosonline.net, os índios divulgam conquistas, trocam informações sobre a cultura, cobram direitos sociais e melhores condições de vida para as tribos.
Propagam a formatura de Júnior Thyrú Tuxá, os confrontos dos Guajajaras em Mato Grosso com fazendeiros, a oficina de vídeos na aldeia Tamandaré do povo Tupinambá de Olivença (Ilhéus, Bahia) ou a reivindicação da obra de pavimentação prometida pelo prefeito de Tacaratu (Pernambuco) aos Pankararus."O índio novo fez do computador arma", diz o pajé dos Tuxá, Armando Gomes Opaco. Ele nunca usou uma máquina, mas ficou convencido de que, se não for pelo arco e flecha digital, a história da sua tribo e as reivindicações locais não chegarão a outros estados, povos irmãos ou autoridades públicas. Afirma o pajé: "Sem o computador, o índio não é declarado em canto nenhum. Com o computador, o povo fica sabendo da gente".
Hoje, 878 índios voluntários fazem parte do IndiosOnLine e abastecem o portal de notícias, postam no canal de vídeos criado no YouTube (http://www.YouTube.com/user/indiosonline) e ajudam a fornecer conteúdo para a conta do Twitter (@indiosonline). A maioria usa computadores instalados em residências, telecentros erguidos nas aldeias, em lan houses próximas ou escolas.
Quando estão em locais de acesso difícil e onde não há sinal de internet, como é o caso do Morro do Surubabel onde os Tuxá promovem rituais sagrados, os índios colhem as informações e as levam até outros computadores plugados na web para transmití-las. No processo de apuração das notícias, os celulares têm sido fortes aliados dos índios para a produção de vídeos caseiros. Desde 2009, há o canal Celulares Indígenas, cuja proposta é produzir vídeos e postá-los com mais rapidez.
O portal idealizado pela ONG Thydewá (http://www.thydewa.org/) contabiliza 2.168 milhões de acessos desde que foi fundado, em abril de 2004. Conta com parceiros importantes, como o Ministério da Cultura (http://www.cultura.gov.br/site/), que passou a considerá-lo um ponto de cultura viva. O site começou com sete etnias (Kariri-Xocó/AL, Xucuru-Kariri/AL, Pankararu/PE, Tumbalalá/BA, Kiriri/BA, Tupinambá/BA e Pataxó-Hã-hã-hãe/BA) até chegar aos 32 povos tradicionais reunidos numa espécie de oca virtual.
"Há 20 anos, não tínhamos energia e nem televisão. Então, o acesso à informação era por meio da oralidade, repassada de um antepassado para outro. Mas tivemos que nos adaptar", afirma Sandro Tuxá, liderança jovem dos Tuxá. "Com o tempo, a gente entendeu que a informática era um veículo muito importante para a nossa luta, para socializar e difundir as informações porque não é todo mundo que vai chegar numa comunidade como a nossa e nos enxergar como indígena. Então - frisa ele - o portal é muito bom porque a gente consegue contar a história sob nosso ponto de vista".
A rede do portal IndiosOnline interliga os Tuxá de Rodelas, aos Pataxó Hã Hã Hãe (BA), os Pankararu (PE), os Xavante, os Makuxi (veja lista completa abaixo) e outras tantas tribos. Sobrepõe-se aos números da inclusão digital no Brasil e na Bahia, estes ainda muito baixos. Segundo o IBGE, dos 4 milhões de domicílios do estado, só 19,5% possuem computador e internet.
Colaboram com o www.indiosonline.net as etnias listadas abaixo. As grafadas em negrito são do Nordeste:
1 -Tumbalalá
2- Kaimbé
3 - Kariri-Xocó
4 - Bakairi
5 - Truká
6 - Karajá
7 - Kaingang
8 - Gurani Ñadevá
9 - Xerente
10 - Tikuna
11 - Krenak
12 - Baniwa
13 - Kamayurá
14 - Fulni-ô
15 - Tapeba
16 - Xavante
17 - Makuxi
18 - Wapichana
19 - Guarani Kaiowá
20 - Terena
21 - Tuxá
22 - Pankararu
23 - Tupinambá
24 - Pataxó
25 - Pataxó Hã Hã Hãe
26 - Tukano
27 - Potiguara
28 - Arara
29 - Xucuru
30 - Guarani
31 - Tabajara
32 - Xucuru-kariri
"Internet é como um canivete suíço.
Tem mil utilidades"

O sonho de Samira Gomes, de 17 anos, é ser jornalista. Só fala disso e parece insaciável para matar as curiosidades acerca da profissão. Na data em que se comemora o Dia do Repórter, 16 de fevereiro, postou no Facebook fotos da primeira experiência dela defronte às câmeras, como aprendiz da TV Pelourinho. Há dois anos, Samira começou a fazer suas descobertas sobre a comunicação, o uso das tecnologias e ampliou sua participação na internet e nas redes sociais virtuais.
Havia começado as incursões quando virou aluna de um curso na ONG Araçá Mirim (www.aracamirim.org.br), em Lençóis, a 425 quilômetros de Salvador. Samira, então bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), tornou-se monitora de meninos e meninas do telecentro da Ong. Passou a tirar dúvidas de alunos do curso a distância. "Fui apresentada a um mundo novo por Marília e adorei. Minha vida hoje é outra", afirma, referindo-se à Marília Pinto, organizadora da Araçá Mirim e espécie de agitadora tecnológica e educacional de Lençóis, município de 10.300 habitantes localizado na Chapada Diamantina.
A pedagoga Marília se utiliza da tecnologia para capacitar jovens de Lençóis e de outros municípios da região da Chapada a fazerem parte na cadeia produtiva e profissional do turismo, principal fonte de renda da região. "Tenho uma preocupação com a sustentabilidade do planeta. Para mim, ser sustentável é encontrar capacidade de desenvolvimento para que futuramente os outros tenham acesso às mesmas coisas que temos hoje". Para ela, a sustentabilidade "passa pela internet e pela educação".
Samira entendeu a filosofia de vida de Marília e ouve com frequência a tutora fazer a comparação entre a web e o canivete suíço escondido nela: "Digo aos meninos que a internet tem milhões de funções. Como um canivete suíço que, muitas vezes, a gente só usa para cortar unha. O canivete tem mil utilidades. Serve até para palitar dentes".
O trabalho da ONG foi vitorioso na categoria "Inovação e Sustentabilidade" do Prêmio Telecentro Brasil 2011, organizado por um grupo de entidades, incluindo o Ministério da Ciência e Tecnologia. No ano anterior, havia conquistado o Prêmio ARede, do Instituto Itaú Cultural (SP), igualmente pela atuação para reduzir a exclusão digital, usando a educação para mobilizar jovens na região da Chapada.
"Quero utilizar todo o meu aprendizado desses cursos na minha realização profissional. Tem muita gente aqui pensando da mesma forma. O telecentro é lotado de crianças e jovens e todo dia tiro dúvidas de gente de toda a região, alunos de cursos de educação à distância oferecidos pela Araçá", conta Samira. A ONG Araçá Mirim atua numa região brasileira com indicadores de educação muito elevados. A taxa de analfabetismo no semiárido do Nordeste, boa parte da área visitada pela reportagem deste especial, é de 22% da população, duas vezes maior que a taxa brasileira (9%)
Internet e futebol, as diversões de Umburanas
Umburanas, a 407 quilômetros de Salvador, apareceu com mais frequência nos sites noticiosos depois que o Ministério do Desenvolvimento e Combate à Pobreza informou em 2011 que se encontra na Bahia a maior proporção de pessoas em condição de pobreza extrema; e após o governo estadual afirmar que o município está no topo da lista dos mais miseráveis.
Mas, na internet, esta é uma única face de Umburanas. Existem várias outras. Páginas da web e uma visita à cidade mostram uma segunda face de Umburanas, feita de tradições culturais, festas tradicionais e paixão pelo futebol. Momentos alegres e coloridos estampam vídeos publicados no site de compartilhamento YouTube, com imagens dos festejos da Roda de São Gonçalo.
Tradição de origem portuguesa iniciada na cidade na década de 60 por dona Jovita, a dança de roda e de vestimentas tradicionais tem registros históricos de uma Umburanas rica. Outra Umburanas é a dos jogadores do time de futebol Boca Juniors - cópia do time famoso da Argentina, que criou um blog para aproximação e divulgação dos atletas (http://bocajuniorsumburanas.blogspot.com/). "Ele nos deu uma repercussão muito boa e animou os atletas que estavam longe dos campos para voltarem ao treino", diz o treinador do time e motorista de uma ambulância do município, José Carlos.
O técnico do time, que existe há 11 anos, tem estádio e treino diário no final da tarde, atua como um pai para os meninos do Boca nas horas de diversão. "Para nós, que moramos numa cidade muito pobre e sem lazer, a internet e o futebol dão a oportunidade da gente guiar esses meninos, conscientizá-los para que eles não entrem no alcoolismo tão comum no interior". O blog do Boca Juniors deixou de ser atualizado pelo fundador e dono de uma das duas principais lan houses na cidade, Fábio Ribeiro, da Tropic@lNet. Ele considera que a página cumpriu sua função de dar repercussão ao time, e será sempre um instrumento à disposição para uso a qualquer momento. Os jovens que fazem parte do Boca Juniors de Umburanas ganharam independência na internet e muitos deles têm hoje suas próprias contas em sites de relacionamento como Orkut, Facebook e Twitter.
No Twitter, aliás, Umburanas anda mais moderna que muitas capitais nordestinas. Apresenta-se com uma conta oficial (@Umburanas_Bahia), que publica links com notícias da cidade e vizinhanças.
Em Tauá é uma inovação atrás da outra

Até o bilionário brasileiro Eike Batista, um dos homens mais ricos do mundo, resolveu investir em Tauá. O grupo dele, MPX, ergueu uma usina solar no município. Localizado no Sertão do Ceará, a 337 quilômetros de Fortaleza, com 55 mil habitantes, Tauá tem a maior parte de sua renda oriunda da agricultura. Sem água ou outro bom atrativo para indústrias, era uma cidade nordestina comum. Mudou o perfil quando transformou a tecnologia em uma alternativa para o desenvolvimento, diferencial nesta região de seca e de poucas oportunidades.
Tauá se fez exemplo de inclusão digital no Brasil. Usa a informática e a internet para ampliar negócios, promover a inclusão de jovens e melhorar a vida prática do cidadão, com programas voltados para a educação, o trânsito e a saúde. Hoje, o município parece estar em uma fase amadurecida quando se trata de utilização das tecnologias. Enquanto muitos gestores estão pensando na expansão do sinal de banda larga, Tauá experimenta programas de computação que se integram à vida cotidiana das pessoas.
Átila Sidran e Jorge Pedrosa são desse Sertão plugado e em desenvolvimento. Os dois são estudantes de baixa renda do município e estudantes da Escola Profissional Monsenhor Odorico de Andrade. Foram responsáveis pela criação de um projeto que visa facilitar a rotina dos agentes de saúde da família. Orientados pelo professor Roberto Carlos e pelo secretário de Tecnologia do município, Elvis Narciel, eles colheram informações para montar um bancos de dados que está sendo implementado em 100 notebooks que serão entregues aos agentes de saúde.
A inovação vai facilitar o trabalho de Selma Torquato e outras dezenas de agentes de saúde do municípios. Já estão sendo capacitados para usar o banco de dados. Dentro de pouco tempo deixarão de andar com o calhamaço de fichas de pacientes penduradas nos ombros. "Vamos melhorar sobretudo em qualidade porque hoje é muito difícil decorar o que se passa com minhas 175 famílias, cerca de 600 pacientes", afirma Selma. O programa de cadastro dos agentes irá ligar os dados colhidos pelos agentes aos Postos de Saúde (PSF's).
Premiada em concursos da área de inclusão digital, Tauá já é visto como referência na implantação da tecnologia para área de saúde. Em janeiro passado, foi eleito pelo Ministério da Saúde para inaugurar o Cartão SUS, programa nacional que cadastra procedimentos do usuário do Sistema de Saúde, fazendo uma ligação com a unidade de atendimento, os PSF's e os profissionais de saúde das ruas. Na primeira etapa, oito postos de saúde de Tauá foram integrados e 10 mil pessoas incluídas.
Esses projetos para a melhoria dos serviços de saúde, outros dos setores de educação, como a alfabetização digital de adultos, inclusão profissionalizante de jovens e trânsito vieram no rastro de outro projeto desenvolvido no município e que ganhou projeção nacional: o Bode-Fone, um orelhão habilitado a usar o sistema de ligações via banda larga, o Voip. O Bode-Fone oferece ligações a baixo custo ao cidadão que quer dar um alô à parentada de São Paulo ou de outros estados do país. Usando o Bode-Fone instalado no prédio da secretaria de Ciência e Tecnologia, a ligação é de graça. Por isso, nos finais de semana há filas na sede do projeto. Hoje, existe um único exemplar do orelhão. O secretário de Tecnologia promete instalar novas unidades nos povoados, agora que o sinal da web foi estendido aos distritos.
A maioria dos projetos de Tauá é financiada pela receita obtida pelo provedor público criado pela prefeitura. Ele reduziu o custo final da conectividade em 70% e ampliou o sinal de acesso à web na cidade. Atualmente, há cerca de mil pontos de acesso à internet aqui. Calcula-se que mais de 52% dos habitantes de Tauá estejam conectados à internet. "Tecnologia em cidade pequena é melhor e mais barata que qualquer obra estruturante", diz o secretário de Tecnologia, Elvis Narciel. Ele comemora a cobertura de 100% do território com sinal da web através de antenas transmissoras, a sondagem da multinacional Microsoft para desenvolver projetos em parceria com a prefeitura, honrarias recebidas pelas experiências promovidas no programa Cidade digital (http://tauadigital.net/), e a escolha de Eike.
PRÊMIOS NACIONAIS
Tauá foi uma das cinco cidades da América Latina que mais reduziram a exclusão digital, segundo o ranking Motorola Solutions 2011. Foi a única do Brasil a receber esta distinção. Ficou ao lado de San Luis, Mercedes e Marcos Paz (Argentina) e Medellin (Colômbia).
Veja aqui:
http://www.guiadascidadesdigitais.com.br/site/pagina/municpio-cearense-de-tau- lidera-no-brasil-esforos-para-reduo-de-assimetria-digital. Havia conquistado no ano passado a décima colocação em outro ranking dos municípios mais incluídos do Brasil, o Índice Brasil Cidades Digitais, trabalho da empresa de pesquisas em tecnologia CPqD e da Momento Editorial:
http://www.cpqd.com.br/imprensa-e-eventos/fatos/299-fatos-185/5539-cpqd-e-momento-editorial-lancam-o-indice-brasil-de-cidades-digitais-municipios-sao-premiados.html).
Um blog contra a corrupção
Em Antonina do Norte, cidade do Ceará de 6.916 habitantes, um blog impulsionou comerciantes, professores e autônomos para a fiscalização de contas públicas e combate à compra de votos. O site www.alertaantonina.org divulga notícias do semiárido cearense no entorno da microrregião Várzea Alegre, ensina a criar organizações não governamentais, disponibilizam arquivos de livros sobre combate à corrupção no Brasil e reproduz notícias que tratam das restrições a políticos com ficha suja, como são chamadas as pendências junto à Justiça Eleitoral.
A presença da ONG, cujo nome completo é Movimento Popular Alerta Antonina (Mopaan), no meio virtual atesta a familiaridade da cidade com a internet. Há cinco anos, Antonina do Norte sequer tinha telefone fixo, mas a internet via rádio já atraía muitos usuários da web e lotava lan houses no centro comercial do pequeno município. O estágio de inclusão digital de hoje em Antonina do Norte é outro.
O www.alertaantonina.org mantém o acompanhamento político do município, localizada a 481 quilômetros de Fortaleza. Conta com o apoio de entidades nacionais, a exemplo da Amarribo Brasil (entidade nacional de combate à corrupção). Tem, além do blog, uma página no Facebook (mopaan.alertaantonina) com 2.540 amigos, através da qual interage com os leitores e divulga seminários e notícias. "É como diz a página inicial do blog: 'Ousamos defender nossos direitos'", afirma Francisco Fernandes, o Paulista, gestor do site, que hoje o administra do Rio de Janeiro, de onde deu entrevista por telefone para a reportagem. Francisco afirma que está no Rio porque sofre ameaças de políticos locais, em virtude das postagens e articulações do blog.
O fundador da ONG e blog deixou a cidade no ano passado. Mesmo de longe, no entanto, alimentou o www.alertaantonia.org e, por meio dele, projetou uma denúncia sobre o uso de transportes escolares. No dia 30 de agosto do ano passado, uma denúncia divulgada no site virou matéria de grandes sites de notícias, como o G1, e de redes de televisão da capital, Fortaleza. Dizia que os veículos destinados a estudantes, alguns estilo pau-de-arara, eram alugados por vereadores e aliados governistas para servir ao município. O caso foi investigado pelo Ministério Público Federal.
No segundo semestre do ano passado, dois ônibus e um micro-ônibus novos chegaram à Antonina do Norte e o serviço de locação para algumas regiões foi suspenso. Os estudantes, que agora usam os ônibus amarelo e preto, adoram o conforto dos veículos. Os pais elogiam a segurança no transporte oferecido aos filhos.
"Tudo é questão de informação. Hoje, a população não só de Antonina, mas do Brasil, tem uma visão mias apurada politicamente em face das informações a mídia, seja virtual ou impressa", diz o promotor do muncípio, Edgar de Medeiros, perguntado sobre o benefício de um blog numa cidade pequena como Antonina. "Isso ajuda muito a questão da democracia, agora ressalto: desde que seja feito com responsabilidade".
Um notebook e o sonho de trabalhar no Google
Édson Célio nunca soube o nome da senhora que lhe doou um computador. A sugestão da doação foi do professor Ricardo de Mesquita, da escola de Educação Profissionalizante Adriano Nobre, onde Édson estuda, em Itapagé, a 170 quilômetros de Fortaleza (CE). O professor resolveu tornar realidade o sonho do aluno esforçado que adorava o mundo online, mas que não tinha condições financeiras de comprar um computador. Um dia, Ricardo avisou aos colegas que era dia de surpresa para Édson e entregou o notebook quando ele entrou na sala de aula.
Édson não largou mais o notebook. "Desse dia em diante minha vida mudou beeem muito". A família dele, que mora em uma casa de taipa no povoado de São Joaquim, zona rural do município, passou a ver o jovem mais comunicativo e requisitado pela vizinhança. "Quando eu chego no povoado, o meu Sertão, está todo mundo me procurando e pedindo ajuda. É lotado", narra. "Acho isso legal", reconhece ele, driblando sua timidez.
Crianças buscam suporte para ampliar o rol de músicas nos seus pen drive, vizinhas pedem dicas de pesquisas escolares orientação ou querem dicas sobre como instalar os cabos dos micros recém-comprados para esperar o sinal de internet chegar a São Joaquim. "O Sertão sem internet estava pequeno para meu filho. Agora não está mais. Ele passa a semana lá na cidade e vem pra cá no sábado", conta Ana Célia, de 36 anos, artesã e mãe do garoto, que deixou o filho passar alguns dias com a tia.
Édson Célio usa um sinal via modem, disponibilizado pela escola, cujo curso técnico ele concluiu no final do ano passado. Quando conecta o computador portátil, reencontra a turma e tira dúvidas online com os amigos ou com o professor preferido, Jober Melo, de informática. "A gente precisa estar atento porque até o Enem colocou as redes sociais como tema de redação", justifica o jovem.
Ele conversa e brinca com os colegas via Facebook ou MSN, do mesmo jeito que muitos meninos da idade dele da capital. "Se não fosse a mulher, o professor e a escola, eu ia continuar minha, sem pensar para frente". Hoje, os pensamentos de Édson, que tem 16 anos, vão longe: "Meu sonho meeesssmo é trabalhar no Google. Pode demorar, mas posso conseguir".
Seu Cré descobre
o real no virtual

O principal diretor do Sindicato dos Trabalhador Rurais de Arari, a 170 quilômetros de São Luís (MA), Crescêncio Corrêa passou três décadas se comunicando com os lavradores da região em auditórios e assembleias a campo aberto, usando apenas o gogó - lembra ele. "Aí ganhei um programa de rádio". A ajuda da internet veio nos últimos anos, como uma evolução natural. "Tem feito um sucesso danado. Principalmente entre os jovens".
Seu Cré, como é conhecido na cidade do interior do Maranhão, agora comanda um programa de variedades na Rádio Cidade Vitória AM (http://www.radiocidadedevitoria.com.br/), que é transmitido online pelo site da emissora e por caixas de som afixadas em postes na cidade, sempre das 9h às 9h45 nos sábados. Por meio do programa, tira dúvidas enviadas pela web ou pelo telefone sobre a produção agrícola local.
Ele nunca usou um computador, mas há 15 anos trata a máquina como amiga e orienta assessores a usarem a internet em favor do homem da lavoura. Em 1995, seu Crescêncio comprou um computador de mesa - o primeiro do município - e o instalou na sede do sindicato. "Hoje em dia, conseguimos benefícios mais rápido. Tudo é online, usando a internet. Agilizamos várias solicitações com empresas públicas de Brasília", afirma ele.
Na Rádio Cidade Vitória, cumpre o mesmo papel que exerce no sindicato – o de porta voz de agricultores. "O amigo Crescêncio defende nós, que é fraco. Na rádio ou na tal da intenet que ele fala na rádio. Sempre foi assim com Crescêncio no sindicato. Do ano de 70 para cá", afirma o lavrador Filomeno Romão, cultivador e vendedor de melancias. Conta seu Filomeno, ouvinte assíduo de seu Cré na rádio, sempre ouvir perguntas de usuários da internet. "Lógico, se um tem dúvida e bota a boca no trombone, a resposta serve para todo mundo que escuta o programa", explica Filomeno.
Cidade de 28.344 habitantes, Arari parece ter enraizada a cultura do uso da internet. Tem uma agência de notícias mantida pelo Fórum da Juventude de Arari (http://arariagencia.wordpress.com/) e blogs atuantes (o http://barrosailton.blogspot.com/, do professor Ailton Barros é um deles). Existe ainda um site oficial eficiente, gerenciado por um dos maiores admiradores de seu Crescêncio, o jovem Cleilson Fernandes.
O site (http://www.arari.ma.gov.br/) tem uma estrutura de redação de dar inveja a algumas cidades desenvolvidas. Para ele, trabalham servidores municipais preparados para atuarem como repórteres de rua. Cada secretaria tem os seus repórteres, que vão em busca de informações junto à população ou com autoridades. Eles enviam os dados para a central e redatores escrevem as matérias para publicar no site. "Para bem da verdade, nós promovemos o real no virtual", teoriza Cleilson.
Seu Crescêncio, Cleilson, blogueiros e a juventude da região compõem uma rede de comunicação real de colaboração mútua, na qual o mais importante é a difusão da informação sobre o que acontece e os que fazem a cidade. Arari, é de reconhecer, ainda se insere numa minoria conectada dentro de um estado onde o percentual de usuários de domicílios com internet em casa é baixíssimo (9,6%).
Está, no entanto, muito bem posicionada quando se trata do aproveitamento das novas tecnologias usadas nos recôncavos de uma região que concentra 27% da população brasileira e que representa apenas 13% da participação no Produto Interno Bruto do país. Um Nordeste que há décadas enfrenta adversidades e que tem conseguido suplantar a imensa desigualdade regional do Brasil.
Unicef forma blogueiros no Maranhão

No Maranhão existem 64 blogs comandados por adolescentes para divulgar atividades culturais, esportivas e educacionais. Foram criados após incentivo do Programa de Formação dos Adolescentes do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Este ano, o município de Arari sediou em fevereiro o último encontro para a formação de novos adolescentes blogueiros. Nos anos anteriores, eles ocorreram nas cidades de Olinda Nova (Baixada Maranhense) e Humberto dos Santos (Norte do estado).
Chamada de "Educomunicação", a capacitação foi fornecida para mais de 100 participantes de 20 municípios e é tratada pelo Unicef como uma "intervenção social". Em Arari, quem a articulou foi o professor Ailton Barros, conhecido pelas redondezas de Arari pela sua atuação como blogueiro e como mobilizador juvenil (http://barrosailton.blogspot.com).
O curso para jovens blogueiros está inserido no Programa de Formação de Adolescentes, que por sua vez integra o Programa Selo Unicef (http://www.selounicef.org.br/). O selo atua nos nove estados do Nordeste, em Minas Gerais e no Espírito Santo como incentivador de políticas municipais voltadas para o desenvolvimento de crianças e adolescentes e para a cidadania. O Unicef acredita que iniciativas como essa pode colaborar para que os municípios atinjam as metas relacionadas aos Objetivos do Milênio, entre eles o fim da miséria, redução da mortalidade infantil e a promoção da igualdade entre os sexos (http://www.objetivosdomilenio.org.br/).
Luanna conecta todo mundo
no Riacho do Mufundo

Cada pedaço do Nordeste tem descoberto suas próprias maneiras de inclusão digital. No Sertão da Paraíba, o sinal de internet via rádio passa de cidade em cidade, com transmissões de torres maiores e antenas menores formando espécies de gambiarras modernas que levam a web a povoados sempre mais distantes. Foi assim que Luanna Gomes de Oliveira se conectou e vem interligando os amigos da Vila dos China, numa zona rural de acesso difícil chamada Sítio Riacho do Mufundo, a uma hora da área urbana do município de Taperoá.
Luanna, estudante secundarista de 16 anos, é usuária de redes de relacionamentos Orkut e Twitter e adora conversar via mensagens instantâneas do MSN. A rede mais ativa mantida por ela, contudo, existe fora do ambiente virtual, ainda que em torno dele. "Aqui quando a gente quer fazer trabalhos da escola ou o pessoal tem dúvida sobre a internet procura Luanna", diz a amiga de infância Bárbara de Oliveira, da Vila dos China, como é conhecido o agrupamento de casas coloridas localizadas a menos de 500 metros de onde mora Luanna.
Na casa de Luanna Oliveira, há dois computadores para servir a ela, aos colegas da Vila dos China e à sede dos irmãos menores Herbert (10 anos) e Malaquias (8 anos) pela web. "Eu e meus irmãos usamos bastante a internet. Minha mãe também já tem contas em sites de relacionamentos. Painho paga contas, lê notícias em jornais, pesquisa sobre o trabalho dele que é na prefeitura e nós todos conversamos com nossos parentes que moram em Patos (PB), São Paulo (SP) e em outros lugares do Brasil", conta Luanna.
Na Paraíba, 186.556 domicílios possuem internet, o que corresponde a 17,26% do total das residências. Em Taperoá, a 216 quilômetros de João Pessoa, parte do sinal de internet sai de Caicó, município de outro estado - o Rio Grande do Norte - por meio do provedor http://www.veloz-net.com/. Caicó fica a 141 quilômetros de Taperoá. Além de chegar às casas, o sinal atende casas comerciais e oferece estrutura para manter no ar sites como o www.taperoa.com. A página, inaugurada em 2005, é um informativo desenvolvido exclusivamente para a internet sobre o que se passa no município.
O Nordeste é a região do país que tem o maior percentual de uso da transmissão via rádio, conforme mostra pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil , o CGI (disponível aqui), 20% do total das conexões utilizam esse mecanismo. O uso da banda larga ainda é baixo aqui. O CGI é a principal instituição de consultoria da área de Tecnologia da Informação e é formada com a participação do Ministério da Ciência e Tecnologia.
A compreensão dos estudiosos do mundo inteiro é que o desenvolvimento local, principalmente em se tratando de lugares mais pobres e afastados dos grandes centros urbanos, depende da ampliação dos serviços de banda larga. Ano passado, em meados de junho, a União Internacional de Telecomunicações (UTI) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) divulgou um relatório intitulado "Banda Larga: Uma Plataforma para o Desenvolvimento (o original, em inglês, aqui). As duas entidades fazem parte da Comissão de Desenvolvimento Digital, criada em 2010, com o apoio do secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon.
O relatório da comissão, divulgado após encontro em Paris, na França, cobra políticas para a banda larga, a fomentação da competição de instalações e provedores visando o compartilhamento de informações nas comunidades e a oferta de empregos. Não importando quão isoladas ou vulneráveis sejam essas comunidades. Afirmam o estudo dos pesquisadores da Unesco, no Brasil, 1,4% do crescimento dos níveis de emprego se deu em razão da oferta da banda larga. Vale salientar, para o grupo banda larga tem um sentido amplo: é uma conexão que presta serviço ininterrupto e de alta capacidade.
Nordeste lidera no crescimento de internautas

De tanto ouvir falar dos benefícios proporcionados pela internet, a dona de casa Claudiane Alves resolveu se articular para conseguir instalar o sinal de internet no alto da Serra Sítio do Cabral, zona rural do município de Mogeiro, distante 110 quilômetros de João Pessoa (PB).
Claudiane anda para cima e para baixo com um abaixo-assinado, reivindicação que pretende levar aos donos de provedores locais e gestores municipais. "É o começo da nossa luta. Na minha cabeça, sem internet, esses meninos não vão se desenvolver. Aliás, ninguém vai progredir", diz a dona de casa. Claudiane afirma que não suporta mais ver o filho e os filhos dos vizinhos com computadores portáteis em cima de um pau-de-arara quando precisam elaborar trabalhos escolares ou querem acessar a internet para divertimento, como fazem jovens do mundo inteiro.
"Esses meninos ficam subindo e descendo a serra nesse caminhão aberto, que a gente chama de pau-de-arara, porque aqui não tem ligação nenhuma para internet. Acho um absurdo, por isso estou juntando assinaturas do pessoal para colocarem uma antena aqui", explica.
Moradores de pelo menos oito residências do Sítio do Cabral já compraram computadores - alguns, de mesa; outros, portáteis - para aguardar a chegada do sinal da internet. A dona de casa em nenhum momento fala da necessidade ou da falta que uma lan house faz no sítio. É como se ela quisesse que a zona rural onde mora pulasse a etapa das lan houses, casas comerciais que oferecem internet paga.
As lan houses ainda cumprem um papel notável de inclusão no Nordeste do país, mas aos poucos perdem espaço. Na região e no Brasil inteiro. Em 2009, pela primeira vez, a pesquisa do Comitê Gestor da Internet mostrou que o uso de internet passou o das lan houses no Brasil nas zonas urbanas. Falta a confirmação do avanço do acesso residencial nas zonas rurais.
Com a webcam, acabou a distância
entre Solidão e São Paulo

Na casa dos Brás, no povoado de Pelo Sinal, zona rural do município de Solidão, o computador ganhou lugar nobre na sala de estar da família. A televisão perdeu a graça e parece escanteada no ambiente. Ficou meio acanhada diante da interatividade vista na tela do monitor LCD 20 polegadas e facilitada pela conexão com a internet.
Pudera: o computador aumentou o tempo de convivência familiar. São Paulo, separado 2.543 quilômetros de Solidão, tornou-se mais perto e os dez filhos de seu Antônio Brás, que migraram para longe em busca de oportunidades de emprego, voltam para a casa onde nasceram quase todos os dias. Nem que seja virtualmente, juntam-se por algumas horas a seu Antônio, ao único filho que ficou em terras pernambucanas, Robson, e à mulher, Leônia – todos trabalhadores rurais.
"Com essa antena de internet que Robson colocou em casa, acabou minha solidão de pai", diz seu Antônio. A antena está no telhado da casa deles há pouco mais de quatro meses. Desde então, os Brás de Solidão encontram-se à noite, usando uma câmera e o MSN, e conversam sobre a rotina dos núcleos familiares. "Falamos coisas simples, mais ou menos como os meninos estão no colégio, sobre quem está doente…É muito bom. Só não dá para abraçar eles", lamenta dona Leônia, sempre sorridente.
Seu Antônio conta que nunca imaginou que a tecnologia trouxesse oportunidades como essas e melhorassem tanto a relação com os filhos. "Os de São Paulo incentivaram Robson e aí compramos essa antena. Para a gente, foi bom demais", afirmou, repetindo esta última frase vez por outra. Feliz da vida, seu Antônio Brás lembra a evolução dos meios de comunicação e como se davam os raros contatos que mantinha com a família há décadas: "Quando eu viajava para São Paulo passava dias esperando a resposta da carta. Em 1993, consegui depois de muita luta um orelhão para o povoado de Pelo Sinal. Veio o celular e hoje a gente fala e vê nosso povo pelo computador. É muita mudança".
A internet da família de Pelo Sinal costuma se conectar à noite, depois das 20h, quando os filhos, noras, genros e netos já têm chegado em casa do trabalho e escola. A maioria dos internautas que acessa redes sociais ou faz uso de mensagens instantâneas tem preferência pelo horário noturno. Dona Leônia, impressionada com o computador e com os bate-papos virtuais com os queridos, tem por hábito quebrar a regra. Sempre pede a Robson que ligue a internet e arrisque um encontro no meio da tarde, quando o sol de Solidão já baixou.
Outro dia, encontrou Disiane, uma das noras. Em dois minutos, começou a ouvir e rir das peripécias da neta Júlia Vitória. Disiane e vários integrantes do clã dos Brás que estão em São Paulo têm perfis em sites de relacionamentos, Orkut e Facebook. O Facebook é o preferido. Estimulado pelos que estão no Sudeste, Robson também aderiu ao site e começa a montar a sua própria linha do tempo.
A casa dos Brás, pintada de verde água, cerca de galinhas e com um orelhão abandonado bem em frente ao alpendre da casa deles ostenta o Nordeste contemporâneo. Ele é feito de residências urbanas e rurais cada vez mais conectadas e de lan houses mais vazias.
Em Solidão, que tem 5.737 habitantes e fica a 411 quilômetros do Recife, o último proprietário da lan house localizada na praça principal da sede do município, Eduardo Pereira, da Net Mani@, vendeu há pouco o ponto comercial. "Entrou em decadência. O povo começou a colocar computador em casa ou então ficou usando computadores do telecentro. Aí, eu estava no prejuízo".
Eduardo, de 22 anos, calcula ter perdido 50% da clientela. Ele repassou o ponto da lan house e montou um outro negócio, de assistência técnica de computadores residenciais no município vizinho de Afogados da Ingazeira. Para este negócio, o mercado tende a crescer. O estado de Pernambuco ainda está muito aquém no quesito inclusão digital - só 19,1% das residências têm computador e internet.
Longe de casa, perto do notebook

Os computadores portáteis viraram companhia dos caminhoneiros que circulam nas estradas do Nordeste. Entraram nas boleias para reduzir a saudade da família e atualizá-los sobre o que se passa mundo afora. "Já somos muitos simpatizantes desse sistema. Hoje em dia, tem tanto caminhoneiro com internet que já nem tem graça mais. Você vai ver uns companheiros conectados por notebooks e outros por celular", contou Robson Feitosa, que está na rodovia há 16 anos e foi entrevistado quando passava pelo trevo do município de Salgueiro, Sertão de Pernambuco, a 511 quilômetros do Recife.
"Isso é aqui em Salgueiro e em qualquer lugar do Nordeste". Os donos de caminhões de grande porte aparecem com mais frequência com computador, informa ele. "É uma questão lógica. Os caminhoneiros que dirigem caminhões maiores ganham salário um pouco melhor e têm mais condição de comprar um computador e manter um plano de celular com internet", explica Robson, motorista de um Ford Cargo de 15 metros de extensão.
A teoria é confirmada por pesquisas sobre o nível de inclusão digital de acordo com a renda do cidadão brasileiro. Dizem elas: 6% dos que ganham um salário mínimo estão conetados; 89% das residências com ganho superior a dez salários estão na rede.
No posto de Salgueiro onde pernoitava Robson, outros dois colegas caminhoneiros estavam plugados no mesmo horário da entrevista - por volta das 22h. Em Picos (PI), dois dias antes, encontramos Roberto Carlos de Oliveira, de Pratápolis (MG), de 37 anos, usando um computador depois de um dia longo. Tanto Robson quanto Roberto Carlos são usuários do MSN e frequentam redes de relacionamentos virtuais.
Robson recebe e envia ainda informações sobre a carga transportada e a que está na espera, consulta as coordenadas dos trajetos trafegados e adora ler notícias no final da noite. "Principalmente as esportivas". Segundo ele, o notebook tem ajudado muito na saudade da mulher e da filha Rebeca, que tem nove anos e que adquiriu o hábito de usar a web can para vê-lo.
Uma outra imagem do Coque

Para falar de internet e das cidades metropolitanas nordestinas, a boa história vem do Coque, comunidade das mais pobres do Recife e estigmatizada como uma das mais violentas da capital pernambucana. Adolescentes e jovens de lá descobriram a capacidade de câmeras, filmadoras, da internet, redes de relacionamentos virtuais e de si próprios quando se colocaram como operadores das máquinas. "Estamos mostrando a verdadeira realidade do Coque, que não é só violência. Com nossos vídeos, as pessoas de fora estão vendo como nós vivemos", diz Jonathan Lima, de 14 anos, que já colaborou com a produção de vídeos caseiros e produções de vídeos bilíngues.
Jonathan e os meninos do Coque descobriram que a tecnologia pode lhes tornar agentes transformadores da imagem local, na medida que divulgam como querem o ambiente onde moram e tentam mudar, inclusive, rótulos atribuídos à comunidade. "Quando a gente botava a palavra 'Coque' no YouTube, a gente só achava vídeos sobre coisas ruins que aconteciam aqui. Aí, passamos a fazer nossos próprios vídeos. Eu mesma só postei vídeo de coisa boa", conta Katarina Scervino, de 17 anos, amiga de Jonathan, aluna aplicada das oficinas de fotografias e vídeos promovidas nas comunidade e usuária de redes sociais como o Facebook e o YouTube.
Com cerca de 12 mil habitantes, o Coque sobre o qual eles falam na web é cheio de memórias afetivas, contos narrados por populares sobre tradições e acontecimentos antigos, cenas do cotidiano atual e gente trabalhadora. Moradores apoiam os meninos abrindo as portas para os vizinhos e seus equipamentos. "Todo mundo colabora com os jovens quando eles aparecem com essas câmeras", diz dona Irene Pessoa, dona de casa que aparece em vídeo no YouTube, cobrando obras para o Canal da Rua Ibiporã, em produção da estudante Manoela Santos. "Acho ótimo que eles se interessem por essas coisas", afirma, para depois emendar uma pergunta: "Me diga uma coisa, você achava que a gente não ia acompanhar a evolução não, é?", pergunta dona Irene, meio envaidecida com a constatação de que, sim, o Coque já faz parte da rede de comunicação formada na internet e a partir dela.
Boa parte das experiências audiovisuais realizadas nesse bairro faz parte do projeto Coque Vive (http://www.coquevive.org/), criado pelo Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e que tem como parceiros o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (Neimfa) e o Movimento Arrebatando Barreiras Invisíveis (Mabi). Com o incentivo do guarda-chuva de ideias que é o Coque Vive, sugiram outros projetos. Entre eles o Coque Livre, unidade de inclusão digital que busca articulação e reflexão de populares em meios digitais.
Foi numa dessas oficinas do Coque Livre, orientada pelos professores Ricardo Ruiz e Ricardo Brazileiro, que os jovens criaram um dispositivo móvel artesanal para colher depoimentos dos moradores e registrar o Coque de 2011. Os meninos passaram três meses preparando uma geringonça e com ela foram para as ruas ouvir o povo. "Eles escolheram a casa como suporte para o dispositivo porque era o que mais se parecia com a celebração do dia a dia", explicou Brazileiro. A casa de madeira media mais ou menos cinco palmos, tinha embutido um esqueleto de computador, um sensor de imagem e som e rodinhas deslizantes.

Numa bela tarde, lá foi a casinha andando pelas ruas do Coque, guiada pelos jovens ouvir os moradores e gravar depoimentos e imagens (http://cotidianosensitivo.info/blog/imersom-coque/). Os alunos fizeram um rol de perguntas para as entrevistas com os moradores e carregaram um banquinho para acomodar quem se interessasse em registrar os seus depoimentos. Banquinho que, vale mencionar, foi usado tendo como inspiração Quinha do Tamborete, moradora do Coque que fabrica banquinhos, vende e que virou celebridade na internet o ano passado.
Sentado no banquinho de madeira comprado a Quinha, Silas Carlos ficou defronte ao tal dispositivo móvel. Falava animadamente da saudade dos antigos festejos de São João no Coque e aproveitava para incentivar os mais tímidos moradores a se pronunciarem: "Vamos, dona Maria José, é para os meninos saberem o que a senhora pensa. Já dei minha entrevista. Pode olhar, é uma máquina de contar histórias". Agora era a vez de dona Maria José se sentar diante da casinha: "O que eu gostava mais daqui? Do chafariz. E o que eu gosto hoje? Das pessoas daqui".
Jonathan, Katarina e outros tantos acompanhavam a casinha high tech, espécie de máquina de contar histórias e promover reflexão sobre o papel do virtual na vida real. Meses após viver a experiência, perguntamos a Jonathan se ele gosta do Coque de hoje e do que ele mais gosta da comunidade. Respondeu o mesmo que dona Maria José: "Não gostava, mas passei a gostar muito do Coque. O que gosto mais é das pessoas que moram no bairro".
LIVRO - A última novidade do projeto Coque Vive foi o lançamento em janeiro passado do livro "O Bairro", edição fotográfica publicada em três idiomas contendo mais de 150 fotografias sobre o bairro do Coque. As imagens são resultado das oficinas do Revelando o Coque, através das quais mais de 50 moradores da comunidade vivenciaram a linguagem fotográfica em aulas e bate-papos. O livro é organizado pelo jornalista Lucas Cardim e teve o apoio do Departamento de Comunicação Social da UFPE, dos participantes do projeto Coque Vive e da Companhia Hidro Elétrica de São Francisco (Chesf). O livro foi lançado na Livraria Cultura do Recife.
"Tudo sobre internet.
Procurar Jussandra, no Piauí"

Grotão deixou de ser grotão clássico no Nordeste. As populações dos pequenos municípios do interior continuam afastadas territorialmente da capital, sim. Isoladas, não mais. É só olhar com atenção para o exemplo de Francisco Macêdo, localizado no polígono das secas no estado do Piauí, separado 334 quilômetros de Teresina e com apenas de 2.879 habitantes. Lá, numa casa modesta de telha à beira da rodovia, mora Jussandra Alencar, 13 anos.
Estudante, usuária do Google, Orkut, MSN, Facebook, YouTube, computador portátil e smartphone, consultora de professoras locais para assuntos de informática e de aulas multimídias, técnica de computação, Jussandra é uma surpresa. "Cobro R$ 50 em média pelo meu trabalho. Mas, depende muito do serviço. Se precisar formatar o computador, não tem jeito. O preço é esse mesmo".
Começou a ter contato com computadores há cinco anos, como a maioria dos meninos da região: frequentando lan houses quando não estava estudando. Com medo de "desmantelar" as máquinas das lan houses, vivia pedindo ao pai, Nonato, e à mãe, Carmem, um notebook de presente. Seu Nonato é comerciante de água; dona Carmem, dona de casa. Ambos apaixonados pela filha estudiosa, atenderam o pedido.
Com a instalação da pequena antena quadrada sobre o telhado, a da internet, ela começou a usar o sinal, mesmo instável. "Já aprendi muita coisa e ajudo muito o pessoal daqui. Com a internet, tudo ficou mais fácil para mim e para o pessoal da escola. As meninas gostam muito de fazer trabalho comigo. De professoras, ajudo muitas. Tem Marinete, Terezinha, Cristina, Lorena…Filmo e faço vídeos, com a web can do computador ou câmera digital, gravo o vídeo em DVD e isso tudo ajuda nas aulas delas".
Jussandra trocou as bonecas pelo computador ("Foi quando dei fé do mundo mais moderno"). Gosta de ler apostilas na web, navegar pelos sites para tirar dúvidas da aula do dia anterior ou prestar consultorias aos vizinhos da cidade. A freguesia a descobriu depois de ela afixar cartazes em papel ofício no Ideal Lanches e na Farmácia Dia a dia, com a frase: "Tudo sobre informática. Procurar Jussandra". Telefones tal e tal….Os clientes foram surgindo.
Hoje, ela atende cerca de três clientes por semana. São vizinhos da cidade com computadores defeituosos, jovens que a procuram para ajuda na preparação de vídeos para trabalhos escolares, professores que querem produzir aulas com recursos multimídia. "Tem dias que recebo chamado pelo computador. Outras vezes, é pelo telefone. Aí, pego minha bicicleta e vou lá na casa da pessoa. Às vezes, minha mãe pede para alguém me olhar atravessando a estrada. Aqui, não tem perigo, com esse negócio de violência. De todo jeito, minha mãe quer que eu diga onde vou", relata.
Jussandra diz que Francisco Macêdo tem se desenvolvido muito. Mesmo assim, acha que precisará deixar a cidade para trás em alguns anos para realizar outros sonhos: quer cursar direito e, depois, computação em Araripina, cidade de Pernambuco. "Com a comunicação, tudo ficará mais fácil para mim e para as pessoas de minha cidade. A internet já mudou muita coisa aqui e vai mudar mais. Acho isso".
As transformações dos grotões nordestinos na era pós-internet já podem ser vistas. Mas elas estão em curso. O Piauí, estado de origem de Jussandra, por exemplo, ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à inclusão digital. Precisa conectar 89% dos domicílios, considerando que hoje somente 11,1% deles têm computador e conexão com a web no estado.
Por outro lado, o potencial do uso da internet é grande. A utilização das redes de relacionamentos confirmam a participação do nordestino no meio virtual. Francisco Macêdo que o diga.
Stéphanny do Crossfox começou assim

O YouTube mudou hábitos de muitos jovens da região de Picos, a 330 quilômetros de Teresina. Por lá, a moda é postar vídeos na web com coreografias de free step, dança livres de rua que se baseia nas batidas de músicas eletrônicas. Jefferson Gonçalves, de 17 anos, é um dos aficionados. Passa o dia inteiro na tolda do pai, na feira pública de Picos, vendendo redes de dormir e consultando pelo seu smartphone a popularidade dos vídeos que posta, a caixa de novas mensagens de e-mail e as contas de amigos do site de relacionamentos Facebook.
"A internet ajuda a inovar nos passos e a treinar os que a gente já conhece. Tanto mostra os feras de São Paulo, Paraná, Pernambuco e outros estados, quanto mede a popularidade da coreografia nos nossos vídeos". Jefferson (que tem vários apelidos na web entre eles Jeff's) e os amigos gravam as imagens caseiras com câmeras digitais ou celulares e esperam comentários e sugestões de outros simpatizantes da modalidade de dança.
São garoto-propagandas inclusive do vídeo promocional do 2º Meet Up Freesound de Campo Maior, campeonato ocorrido na cidade que fica próximo a Picos, reunindo dançarinos de Oeiras, Esperantina, Castelo e da capital Teresina (veja o vídeo ao lado). "Conheci muita coisa usando a internet nas lan house. Primeiro, era eu sozinho usando jogos eletrônicos. Agora, acesso em casa, na feira e sou eu e um monte de gente".
Os jovens estudantes vêm fazendo a evolução digital e descobrindo novas formas de manifestação cultural e contato com o mundo. Também admiradora da dança e da música e gravando imagens das cidades de Picos, Inhuma, Bocaina e São José, região onde mora, a piauiense Sthéfanny Sousa, conhecida na web como Sthéfanny do Crossfox (veja o vídeo ao lado), fez da internet um trampolim para o estrelato.
Postou um vídeo no YouTube cantando músicas no ritmo pop brega e fez sucesso. Foi parar em programas de variedades nacionais, ganhou seu próprio veículo modelo Crossfox amarelo no programa de Luciano Huck (TV Globo) - como sonhava. Sthéfanny já fazia sucesso na região, mas a internet a fez estourar. Hoje, realiza cerca de 25 shows por mês com uma turnê de mais de 24 pessoas, entre músicos, seguranças e produtores.
Depois da missa, internet na praça

Muitos municípios de pequeno porte do interior do Nordeste viram o fenômeno da proliferação das lan houses e buscaram criar telecentros para servir à população. Passadas estas fases, atualmente estão preocupados em criar sinal da web em banda larga em áreas abertas, como fez Montanhas, a 103 quilômetros de Natal. Lá, a prefeitura instalou em novembro passado uma pequena antena na praça principal e viu aumentar o movimento das ruas nas noites de domingo, logo após o horário da missa da Igreja Católica na igreja matriz.
Por volta das 21 horas, os banquinhos de alvenaria que cercam a praça são ocupados por usuários de computadores portáteis ou de jovens com smartphone nas mãos, dispostos a passar horas a fio conversando com amigos nas redes de relacionamento ou visitando sites de músicas. "E a gente ia ficar para trás, é!?", questiona Hélio Ramos, promotor de festas na maior parte do tempo, agente de saúde no horário comercial e usuário assíduo do sinal de internet banda larga gratuito da praça.
"Pode procurar porque não tem nenhuma praça animada como essa de Montanhas. Já era boa, mas, com a internet, aí já viu", diz Hélio. Conecta usando um sinal emitido por uma pequena antena de cinco palmos, que mal é vista por quem circula na praça. "O wi fi é muito bom. Com ele, podemos fazer download, baixar músicas e filmes, coisa que quando o sinal é lento a gente não faz". Utiliza um notebook pessoal para fazer a conexão.
Ele conta que usa a internet gratuita todos os dias da semana. "Gosto de sentar onde tem luz mais forte. A internet da praça tanto me serve para pesquisar sobre as doenças mais comuns do sistema de saúde da família, que é meu trabalho, quanto para minha diversão". Hélio Ramos conta que usa uma variedade de redes sociais: Facebook, Twitter, Orkut, assim como o sistema de mensagens instantâneas o MSN. "Essa banda larga de graça oferece uma grande oportunidade para muitos jovens que não têm condições de pagar uma internet nas lan houses por um longo período de tempo".
Em Montanhas, a instalação da banda larga foi ideia do filho da prefeita Maria Eliete Bispo, a Letinha. "Ele disse para mim que era para colaborar no desenvolvimento dos estudantes. Aí, como sou professora, achei de concordar". André Bispo, que além de filho é secretário municipal de Turismo, diz que gastou R$ 1 mil para a implantação da antena. Promete espalhar equipamentos iguais em outras praças de Montanhas.
As previsões em Montanhas são animadoras. As do Brasil também são. Calculam os estudiosos do Comitê Gestor da Internet que dentro de três anos, pelo menos 52% das residências brasileiras terão web, numa previsão pessimista. Na otimista, pensam em 80%. No caso do Rio Grande do Norte, significa que será necessário quase triplicar o percentual de residências conectadas à web hoje.
Qualquer conexão vale a pena

Há cinco anos, a professora Kécia dos Santos, de Canguaretama, a 67 quilômetros de Natal, instalou um computador na sua residência na zona rural do sítio Outeiro e disse que iria esperar a internet chegar. Pensava que uma sequência de postes e um emaranhado de fios seriam necessários para conseguir se conectar. Hoje, usuária da web, Kécia percebeu como o acesso à tecnologia vai sendo simplificado.
"Nos conectamos de uma forma diferente da que eu pensava. Muitas vezes, plugo meu computador de mesa antigo ou o notebook que acabei de comprar pela linha do meu celular mesmo", afirma. Kécia, agora professora do Sítio Outeiro, diz que já percebeu os impactos da chegada da web no arruado onde mora. "É impressionante. Os meninos que antes brincavam de bola agora pedem um computador a papai noel no fim do ano", conta ela, que paga R$ 70 por mês para ter direito ao sinal da web. "Mudou tudo por aqui, inclusive a dinâmica de sala de aula. Por isso, desisti de pensar no futuro porque a gente não sabe mais o que esperar dessas tecnologias".
A expectativa de Kécia para o uso da internet influenciou a família Santos. Kaiane, que ganhou um curso de informática pago pela irmã há três anos, conquistou um emprego na prefeitura. Hoje, trabalha cadastrando na web usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Ambas usuárias de sites de pesquisas e redes de relacionamentos, são referência para primos e vizinhos.
De Itabi para a China, via internet

Um movimento surgido no interior de Sergipe em 1936 faz sucesso na internet há cinco anos. Visto em 186 mil citações no Google, é notícia em vários sites, tem vídeos no YouTube e já se espalhou para outros países. É o movimento católico Terço dos Homens criado em Itabi, a 138 quilômetros de Aracaju, pelo Frei Peregrino e por seu Antônio Menezes de Sousa, o seu Tutu, em 1936.
Com 93 anos de idade, seu Tutu morreu em outubro passado, no ano em que o movimento Terço dos Homens no Brasil completou 75 anos de fundação. Partiu sem saber a extensão do hábito religioso de reunir apenas homens para rezar em torno da imagem de Nossa Senhora. "Não sei nem como é essa coisa. Mas, se através desse negócio de computador o terço e as orações aumentaram, aí tudo bem", disse seu Tutu em setembro, numa visita da reportagem à sua casa. "Fico feliz com o que você está me dizendo, apesar que vou continuar sendo o maior pecador".
Ao que tudo indica, as rezas cresceram e a internet serviu de mola propulsora para a divulgação do terço, gerando até disputa sobre quem entrou primeiro na rede. O site Terço dos homens, administrado de Fortaleza (CE) por exemplo, faz questão de frisar: "O número 1 da internet", "Criado em março de 2005". Mais abaixo na página de rosto do site, enfatiza a lembrança: "Não confundir o site do Terço dos Homens com www.tercodoshomens.org.br ou www.tercodoshomensmaerainha.org.br.
O site que se diz pioneiro anuncia média diária de visitas de 290 pessoas. Nele, há links que ensinam a oração do terço, informes sobre a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil e vídeos com depoimentos de participantes. O depoimento de seu Tutu, gravado há três anos, é um deles.
O movimento do terço fundado por seu Tutu em Itabi tem sido reproduzido Brasil afora, conforme estampam inúmeros vídeos publicados no YouTube, onde se veem cenas da prática em Monte Alto (SP), Ibiporã (PR), Brasília (DF) e em cidades das cinco regiões do país. Blogs de Jundiaí (SP), Patu (RN), Castanhal (PA) e Santa Cruz do Capibaribe (PE). "Hoje, temos grupo de Terço dos Homens até na China. E, graças à Nossa Senhora, a internet tem sido grande aliada do movimento dos devotos de Maria", diz Neudo Aragão, coordenador do grupo em Itabi.
A tradição religiosa do Terço dos Homens de Itabi está em sintonia com a política adotada pela Igreja Católica de valorização dos instrumentos tecnológicos e da utilização do mundo virtual para a propagação da fé. Ano passado, no dia em que se comemorou o 45º Dia Mundial das Comunicações, o papa Bento XVI divulgou uma mensagem com o título "Verdade, anúncio e autenticidade na vida na era digital". Bento XVI discorreu sobre o poder das redes sociais e recomendava que os fiéis utilizem "o poder das novas tecnologias" para "que as pessoas se encontrem para além dos confins e espaço das próprias culturas e inaugurem um mundo de potenciais amizades".
A Igreja fez até sugestão de preces - "Para que as mídias sociais possam ser canais de luz e propagação do evangelho" - e o papa já postou seu primeiro tuíte na conta do Vaticano (@news_va_en). Afora o Twitter, o Vaticano possui ainda contas no Facebook e na rede de compartilhamento de fotografias, o Flick. Assim como o Vaticano, muitos desses grupos de Terço dos Homens vêm criando suas próprias páginas no Facebook.
O de Paratibe, no município de Paulista, em Pernambuco, fundou sua página há seis meses. O grupo publica mensagens religiosas e os integrantes escrevem convites a outros participantes. Os praticantes do Terço dos Homens da Paróquia Nossa Senhora de Fátima inserem-se nos impressionantes número acerca do uso das redes sociais por parte dos nordestinos. Pesquisas indicam que 13% dos novos acessos à internet feitos em 2011 foram oriundos do Nordeste, destaque quando se avalia as regiões com mais novatos.
O desafio de Caju e Castanha ao Google
O Google, site gigante das buscas, percebeu o potencial do Nordeste, região com a segunda maior população do Brasil e que lidera o ranking nacional das que mais acessam as redes sociais de relacionamentos. Não à toa, a versão brasileira do vídeo promocional que lançou as novas funções do buscador, divulgado em junho do ano passado, teve como estrela a consagrada dupla pernambucana de emboladores Caju e Castanha. Dois nordestinos da cabeça aos pés.
No vídeo, Caju e Castanha desafiam o Google Instant Search cantando: ""E hoje na velocidade eu quero ver quem vai vencer//É eu, você ou o Google//Ou é o Google, eu e você?". Com o pandeiro na mão, os artistas fazem os repentes, tradição tipicamente regional com rimas cantadas e improvisadas, enquanto as palavras soletradas por eles são digitadas na caixa de textos do site, abrindo várias opções parecidas.
"Na hora de sua busca// bem antes de terminar// ele já vai te mostrando o que você precisar//Ele é igual um repente quando eu vou improvisar", dizem. Um show com a cara da internet e com o jeitão do Nordeste: Se quiser conhecer mais Caju e Castanha, dê uma passada no site deles (http://www.cajucastanha.com.br/site/)
Sinais do futuro
no meio da desigualdade
A impressão que se tem quando se anda pelas estradas do Nordeste do Brasil é que as pesquisas e teorias dos estudiosos da área de tecnologia no país precisam ser atualizadas. Nos pequenos municípios da região já não se vêem lan houses lotadas como antes. O que saltam aos olhos são as antenas quadradas que começam a ocupar espaço nos telhados de casas humildes e que se somam às antigas parabólicas e às antenas para sinal de celular.
Após uma viagem de 11 mil quilômetros pelos nove estados do interior nordestino, é mais fácil entender como a região ficou no topo de uma pesquisa sobre o número de usuários da web em sites de relacionamentos, disputando a vaga com o Centro-Oeste (com 75% de participação). No Maranhão, por mais de uma vez, foi só ligar a câmera de uma máquina digital fotográfica amadora para aparecer nordestino perguntando: "Ei, vai colocar isso no YouTube, é?", indagou Reginaldo de Jesus, em Arari, ao encontrar a reportagem ao longo da rodovia e referindo-se ao site de compartilhamento de vídeos mais badalado da web.
As redes sociais virtuais e a internet já envolveram cidadãos da zona urbana e da zona rural dos grotões, arrebataram jovens, pessoas de meia idade e até idosos, para lembrar de seu Antônio, de Solidão, que se comunica com os dez filhos sediados em São Paulo. Gente que está no meio do caminho de uma evolução digital, a exemplo dos caminhoneiros de Salgueiro (PE) e Picos (PI) que circulam pela estrada com seus notebooks e modem banda larga em suas boleias.
Quando se circula pelos lugares mais escondidos do Nordeste desconhecido, nota-se como os smartphones estão popularizados - sejam eles cópias de marcas conhecidas ou não, vendidos em lojas autorizadas, nas feiras públicas de Picos (PI) ou Goiana (PE). Comercializados como bananas.
O Nordeste em rede é a região mais pobre do país que, em 2000, tinha 511 mil de domicílios conectados e que, uma década depois contabilizou 3,1 milhões de residências plugadas na web. É aquela que ainda amarga os piores indicadores de desenvolvimento humano do Brasil e as piores taxas de inclusão digital (21,1%), mas que surpreende. Por não ser refratário às novas tecnologias. Por aproveitar ao máximo as oportunidades e por se adaptar a um mundo que também é o seu.
Por um novo direito brasileiro

Tramita no Senado Federal Proposta de Emenda à Constituição (PEC 06/2011) de autoria do senador Rodrigo Rollemberg que inclui no rol de direitos sociais o acesso à Rede Mundial de Computadores, a Internet. Se aprovado, o artigo 6º da Constituição Brasileira passará a vigorar com texto que elenca a internet ao lado de direitos como a previdência social, segurança e educação.
Justifica o senador Rodrigo Rollemberg que a internet é determinante para o mercado de trabalho e desenvolvimento em setores diversos e cita a política da União Europeia de tornar a economia do conhecimento como objetivo estratégico do século. "Acreditamos firmemente que a inclusão desse direito em nossa Constituição contribuirá para decisivamente para a redução das desigualdades brasileiras", argumenta o autor da proposta.
A PEC (cuja argumentação completa pode ser vista aqui) está na Comissão de Constituição e Justiça do Senado há um ano (desde 3 de março de 2011) à espera da indicação de um relator para a matéria.É a análise do relator que vai ao plenário para votação.
ENTREVISTA // Maria Eduarda Rocha
Doutora em Sociologia, formada pela Universidade de São Paulo (USP), dedica-se a pesquisar temas ligados à novas tecnologias, mídias, consumo, comunicação e democracia. Professora do Departamento de Ciências Sociais e pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

De que forma a Sra. acha que a internet pode impactar nos aspectos filosóficos, culturais ou políticos das pessoas e mais especificamente do interior?
Não sei, mas talvez se a gente considerar que na cidade grande é mais fácil ter mais ponto de informação…Mas, no meu entendimento, existe uma disseminação do uso mais corriqueiros das novas tecnologias. Digo, planilha do Excel, Word e rede social e, na verdade, há uma dificuldade das próprias políticas públicas de tentarem disseminar outros usos e explorar de maneira mais ampliada as potencialidade das novas tecnologias. Que tipo de potencialidade? Da autoexpressão, reflexão, da troca, do contato, da construção coletiva de outras experiências, que não sejam as do dia a dia de todo mundo. Então, acho que existe um conflito das duas potencialidades de uso. Na verdade, todos nós - e não só as pessoas do interior - costumamos usar as novas tecnologias como um simples instrumento de adaptação ao mundo tal como ele é. Para você ter uma ideia, pensa-se: vamos pegar um pedreiro e vamos ensinar como ele faz um orçamento no Excel. Nada contra. O pedreiro precisa ampliar sua clientela, ser mais eficiente, mas é necessário estimular o uso das tecnologias como instrumento de expressão humana que não sejam simplesmente as que já foram dadas.
O conflito se daria de que forma?
Ele só se apresenta quando você tenta estimular outro tipo de uso das novas tecnologias, como a experiência que tivemos no Coque (comunidade pobre do Recife, PE), como outras experiências de mídia livre que encontram dificuldade porque os hábitos já estão muito incorporados. Experimentar essas outras potencialidades, às vezes, exige um estoque de conhecimento que é bem mais difícil do que você simplesmente ficar na rede social - nada contra. São formas de aproveitamento interessante e disso pode-se construir muita coisa interessante, mas tem muita coisa que fica perdida no meio do caminho.
Mas é possível afirmar que a internet já tem moldado ou modificado a identidade cultural dessas pessoas?
Difícil dizer porque a gente, como pesquisador, precisa de uma pesquisa mais sistemática sobre isso para discutir até a representatividade dos dados. Mas, sem dúvida nenhuma, é razoável supor que a internet tem sido um instrumento de construção de relações que se diz relações desencaixadas. Que não estão confinadas numa dimensão espacial físicas. Então, da mesma forma como em outros lugares, você tem pessoas se juntando a partir de preferência musicais, estilísticas, filosóficas, alimentares…Enfim, a fauna variada que tem na internet. Da mesma forma que isso vale para as pessoas que estão aqui, essas pessoas do interior que estão acessando a internet podem explorar esse tipo de oportunidade.
E que leque de oportunidade a Sra. acha que se pode oferecer e se vislumbrar para uma população mais pobre ou de áreas mais distantes?
É fundamental insistir nesse ponto: existe uma coisa chamada letramento, que vem antes do uso da tecnologia em si. Depende do estoque de conhecimento de conhecimento que essa pessoa tem, do repertório que ela foi educada, depende de uma série de recursos, da informação de todo tipo. Se não houver investimento maciço em educação, as experiências mostram que, se você pega um computador e coloca na frente uma pessoa que não foi estimulada a ler, escrever, partilhar e produzir imagem e pensar de uma forma mais criativa, o que ela vai reproduzir é aquilo que ela já conhece. A gente tem experiência em oficinas de fotografia e as meninas reproduzem as imagens do que seja as imagens da menina mais corriqueira da publicidade. Então, se não houver esse investimento, a tecnologia em si não é capaz de produzir uma revolução cultural que é aquilo que, de fato, a gente precisaria. Num horizonte temporal curto e também modesto na esperança que a gente pode depositar nas TICs, a gente pode dizer que tem a questão da empregabilidade. É a questão das novas tecnologias pelo discurso e pela prática. Então, é formar mão-de-obra para o mercado de trabalho. A gente sabe que aqui em Pernambuco a gente está vivendo um momento expansionista importante do ponto de vista econômico e significa dizer que, mesmo esses usos mais banais de saber mexer num editor de textos, saber usar as redes sociais, mesmo esses usos pode ser importante no mercado de trabalho.
Então, a Sra. acha que seria preciso uma intermediação maior do uso das tecnologias da parte dos atores da área de edição ou uma preparação maior das pessoas para lidar com as novas tecnologias?
Com certeza, mas eu não sou educadora. Estou falando de enxerida, mas seria interessante. Seria mais interessante se essas tecnologias fossem disseminadas e o contato fosse transversal, que você percebesse que, para entender matemática, o computador dá várias possibilidades. Para falar português, o computador dá uma bibliotecas de coisas fantásticas. O uso que o indivíduo faz do computador é o ponto de chegada de um processo de socialização que começa na família, passa pela escola e pelos meios de comunicação de massa. Então, se você não perceber isso, o que acontece é que a gente cai no discurso do admirável mundo novo. De coisa redentora que vai levar a gente para outra dimensão da realidade, quando na verdade isso está completamente esquadrinhado por tendências sociais que são as nossas do dia a dia.
Deixe eu entender: A senhora é entusiasta das novas tecnologias, mas acha que elas só são úteis se houver uma base social sólida por trás do indivíduo que a utiliza. É isso?
Se não houver experiência cultural - aliás, dizer isso parece que as pessoas não têm cultura - mas não houver cultura e outras experiências culturais, além daquelas que todos nós temos, se você não tiver…Por exemplo: o indivíduo vem de uma família que tem uma certa cultura e entra na escola para abrir esses horizontes e conhecer outras coisas, não é? Se não houver esse movimento, se a escola não for esse lugar, se as famílias não tivessem a preocupação em dar uma formação humana mais ampla, as tecnologias vão fazer com que o mundo seja igual como ele já é.
A reportagem do #NordesteEmRede percorreu 11 mil quilômetros e a busca da equipe era verificar até que ponto as pessoas estavam incluídas socialmente. Fico pensando qual é o impacto que esse contato pode gerar nessas pessoas. A Sra. pensa sobre isso?
Na verdade, o impacto vai depender se você tem um tipo que tem uma curiosidade intelectual nata. Se você não tiver condições de desenvolver isso, vai até muito pouco. Se por um acaso ele entrar na internet e der a sorte de topar com acervos culturais que possam alimentar a curiosidade dele, isso pode ter um impacto muito grande. A questão é que a gente não pode depender daquele tipo que Manoel Bandeira descreve - do menino esquisito que tem vocação intelectual. A gente tem de estimular essa dimensão na vida de todo mundo porque todo mundo tem essa potencialidade de falar sobre as coisas, pensar sobre as coisas, e isso as pessoas já têm, mas acho que é função do poder público estimular isso, ver esse lado das pessoas e acho que um caso aqui e ali é interessante para ver o que poderia de vir de política consistente, de melhoria do ensino do Brasil. Aí a gente poderia multiplicar isso exponencialmente.
A Sra. acha que esse acesso e esse contato maior com as novas tecnologias, a inclusão digital tem se dado em ritmo mais rápido que essas políticas políticas?
Com certeza. Isso é uma característica do Brasil nos últimos 20 anos - nem digo nos 20 anos porque a gente pega o ciclo de FHC (Fernando Henrique Cardoso), que foi um ciclo recessivo mais que qualquer outra coisa. Mas, se a gente pegar de Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) para cá isso, está muito mais forte essa coisa do consumo e tem dados bastante sistematizados. Por exemplo, já tem muito mais domicílio com internet do que domicílio com saneamento básico. Então, é uma coisa a se pensar. O Estado está correndo atrás do próprio mercado. Por isso acho importante essa discussão pública. Nós, como sociedade, queremos. Vem uma expansão do mercado consumidor, mas o poder público não acompanha. E a questão é que, quando o poder público não está lá, é o mercado que vai fazer as coisas funcionar. Então, quando você tem uma política pública que só tem como ambição formar as pessoas para o mercado de trabalho isso é abdicar do papel do poder público que é, sim, formar as pessoas para o mercado de trabalho, mas é desenvolver a capacidade crítica, reflexiva e intelectual de cada ser humano. Sem o que a vida desse ser humano pode parecer incompleta, mesmo que ele tenha geladeira, máquina de lavar, o que é que seja.
A Sra. tem pesquisas e trabalhos na área de comunicação. O que pode dizer sobre o papel da internet na forma como as pessoas se comunicam e qual a relação que se pode fazer entre a web e o sistema de comunicação mais amplo?
Na realidade, esse é um processo que já está iniciado desde a década de 70, que é o deslocamento gradual do consumo de mídia para as novas tecnologias, basicamente internet. A Globo está preocupada com as novas gerações que, quando assistem novela, costumam assistir no YouTube. Está mias preocupada que propriamente com as outras emissoras do sistema de comunicação, embora também estejam preocupadas com isso. Estão começando a sair as pesquisas mais amplas sobre as novas tendências porque para estudar sobre isso tem de estudar os jovens. Tudo leva a crer que ele consome muito menos TV que as gerações anteriores. Embora não haja uma diferença grande daquilo que é consumido na internet. Por exemplo, série de televisão e publicidade continuam tendo peso importante na nova mídia, mas a porta de entrada no sistema de comunicação está mudando cada vez mais até o ponto que essa diferença entre computador e televisão desapareça.
Quais são os desafios que terão os cidadãos do futuro dentro das suas comunidades diante das novidades tecnológicas?
Eu acho que o desafio é o mesmo que pesou para outras gerações em circunstâncias diferentes. É o desafio de imprimir um pouco das nossas aspirações, das nossas vontades no mundo no andamento da vida e qual é a possibilidade de a gente ser arrastado por ela como um rio caudaloso que a gente não tem nenhuma condição de se equilibrar no meio dele. O desafio maior é a apropriação das novas tecnologias, é o uso emancipatório dessas novas tecnologias para tentar bagunçar o circo porque ele anda demasiadamente regrado.
E esse, na sua opinião, é um desafio maior ou menor para populações mais pobres e de populações mais afastadas, objeto principal da nossa reportagem?
É bem maior porque, para começo de conversa, a gente pode viver sem precisar produzir outro tipo de coisa além do discurso. E, lógico, tem uma questão de que as pessoas estão correndo muito atrás de resolverem as questões de sobrevivência mais imediata. É claro que, para essas pessoas, é mias difícil e é mais difícil poder imaginar que tipo de outra vida poderia levar coletivamente.
A Sra. leu algum trecho do especial #NordesteEmRede?
Li a matéria sobre o Coque e vi uma menina muito impressionante (Falava de Jussandra Alencar, de Francisco Macêdo, no Piauí). Achei muito interessante justamente isso: as contradições que a gente viveu durante o projeto Coque Livre (do qual ela foi voluntária), que foi a implantação da Unidade de Inclusão Digital. De como essas dificuldades aparecem. Pensei nisso pelo fato de que as experiências recortadas são experiências mais individuais do que as que trabalhem com a construção coletiva. Dá conta disso: as pessoas e a gente está usando a tecnologia mais privativista. Cada um no seu escritório e na sua casa catando seus interesses - claro buscando aquilo que é de seu interesse. Lógico, através da internet colocando-se em articulação em contato com as pessoas, mas não há uma vivência coletiva; está mais para virtual.
Eu tive outra impressão do Nordeste durante a apuração dessa reportagem. Há vários exemplos de impacto no coletivo. Essa menina mesmo, a Jussandra, ela impacta bastante a família, os amigos, a comunidade onde vive que é uma cidade muito pequena… Talvez o meu tom esteja amargo porque ainda esteja sob um processo. A experiência do Coque foi muito difícil. A gente esbarra com essa questão de ter de competir com a Coca Cola, com cursos para formar recepcionista. Claro, a gente entende e não dá para concorrer com essas coisas. Mas a gente bateu muito nesse repertório cultural. É claro que a tecnologia não é algo isolado das outras. Acho que a coisa é promissora mesmo, mas o papel da gente é às vezes dizer: Olha, pera lá, olha aqui o perigo.
Qual a impressão que a senhora teve do especial #NordesteEmRede?
Acho que teve um aspecto muito interessante que é a desconstrução de uma certa imagem imobilista do Nordeste. Mas o Nordeste está virando do avesso. É importante trabalhar essas coisas no âmbito dos costumes.
ENTREVISTA // Sérgio Lüdtke
Jornalista, editor de internet, acaba de assumir a coordenação do Master em Jornalismo Digital, organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS). Com experiência em conteúdos online, internet e uso de redes, traz na trajetória profissional passagem pelo Grupo RBS (editor executivo de Internet e Inovação) e na Editora Globo (editor de Conteúdos Digitais e Online). Edita o http://interatores.com/ e pode ser encontrado no @ludtke ou no https://www.facebook.com/#!/sergio.ludtke

"O especial dignifica a internet"
Será que o progresso da internet nos grotões do Nordeste está andando tão rápido que as pesquisas não conseguem registrar e acompanhá-lo?
Acho que a estatística ela registra. A leitura que se faz da estatística é que talvez seja o problema. É uma leitura fria. Quando a gente faz em crescimento de acesso, os números sempre surpreendem. Mas a surpresa que se tem com esses números e a excitação que se tem com isso ela talvez interrompa uma visão mais detalhada - que é o que vocês acabaram fazendo aí com esse trabalho no Diario de Pernambuco. Eu tuitei hoje (segunda-feira, dia 11/03/12) o material dizendo que era quase uma Coluna Prestes das conexões via internet. O que vocês fizeram foi quase o que a Coluna Prestes fez, só que de forma atualizada, em busca de uma outra coisa. Os números no Brasil sempre impressionam e essa falta do olhar com mais atenção o detalhe se explica muito com a surpresa que as pessoas têm com a vitalidade do Orkut, por exemplo. O Orkut, apesar do Facebook já ser hoje a principal rede social dos brasileiros, tem aí em torno de 38 milhões ou 40 milhões de contas, o Orkut se estima que tenha 34 milhões. E é uma rede social ativa. As pessoas tratam o Orkut com desdém, mas não lembram que, para boa parte da população, o Orkut ainda é ferramenta de comunicação que as pessoas têm. Pessoas que não dispõem de e-mail, que não trabalham com internet na empresa, que precisam se comunicar com as pessoas, se valem muito do Orkut para isso. Esse é um número que não aparece, é uma realidade que está inserida nos números, inserida nos registros, mas ela não é vista. A Imprensa mesmo quando vai dar qualquer notícia sobre os números da internet no Brasil faz comparativos com igual período no ano anterior. Ou seja, os números por si são tão impactantes que as pessoas não vão além disso ou não têm interesse imediato de ir além disso. Às vezes, a necessidade de dar rapidamente a informação faz com que tudo que está por trás disso e esse recheio da informação não seja considerado. Porque para isso precisa tempo, precisa análise, precisa entender o porquê desses números. O que a gente vê é todo mês, ou de dois em dois meses, é números crescentes de tempo de permanência, de uma rede social que ultrapassa outra e isso é muito superficial. São os números que vêm à tona e o número, às vezes, para o jornalista ele basta porque ele traz uma informação de impacto. De alguma forma, representa uma realidade porque ele tem um crescimento, mas de onde vem esse crescimento, como estão utilizando isso não aparece. Então, esse trabalho que vocês fizeram é um trabalho que dignifica a internet. Vocês conseguiram fazer isso de forma muito interessante porque a internet é uma ferramenta fantástica para conexão entre as pessoas, para a comunicação, conseguiu fazer um protagonismo inclusive na área de jornalismo. Só que, normalmente, a própria Imprensa trata a internet com certo preconceito. É como se a internet tivesse culpa da banalidade do mundo. E não é verdade. Ela só expressa uma realidade do que a gente vive. Como uma pessoa que trabalha com a internet, que gosta de internet, eu fico muito orgulhoso do trabalho que vocês fizeram. Ele realmente coloca em pé e dignifica, mostra como ela tem ajudado as pessoas. Porque dessa forma que deve ser vista: como um instrumento, como uma ferramenta que conecta, que ajuda as pessoas a se comunicaram, a se encontrarem. É assim que eu vejo a internet e acho muito legal o que vocês fizeram.
Então, o que lhe o Sr. destacaria nas descobertas do especial #NordesteEmRede é o olhar diferenciado sobre como a internet impacta na vida das pessoas?
O fato de vocês terem ido além de simplesmente buscar uma informação númerica, uma informação econômica, é muito bom porque isso exige esforço. Vocês tiveram esforço de buscar informação, de ouvir as histórias que no fundo encantam as pessoas. É isso que faz ou não de alguma coisa. São as boas histórias. É o que o jornalismo faz. Números todo dia a gente vê. No dia seguinte os números já mudaram e a gente não tem mais essa memória. Pode perguntar a qualquer pessoa quantas pessoas acessam a internet no Brasil. Todo mundo leu a última informação, mas já não sabe mais se é a última informação. O número em si não diz muito. Ele revela alguma coisa. Ou a gente tem curiosidade de saber o que está atrás dos números e vai achar as boas histórias ou se contenta com eles.
O Sr. acha a internet muda ou pode mudar o protagonismo e a forma de se comunicar dessas pessoas do interior do Nordeste?
Totalmente. Eu lembro que quando eu era criança eu morava também numa cidade de interior e lembro dos programas do rádio que havia no final da tarde. Era programas de avisos, de recados. Por quê? Porque as pessoas têm necessidade de se comunicar, precisam se comunicar. Quer dizer: somos seres absolutamente sociáveis e o Brasil é um país muito sociável. Então, na medida que elas têm uma ferramenta que ajude a conectar as outras pessoas, faz delas pessoas mais felizes. Quando a gente vai para o Nordeste e tem vários exemplos de conexão com outros centros, de pessoas que tiveram que deixar suas famílias e migraram para outros estados e agora conseguem ter essa conexão facilitada, isso é fantástico. Uma dessas histórias já vale tudo. Você tem várias, mas qualquer uma delas já valeria.
Qual a história que mais lhe chamou a atenção?
Não consegui olhar todas ainda - é um trabalho muito grande, mas eu vi uma que era a história da ligação de Solidão com São Paulo, de pessoas que ficam em um povoado chamado Pelo Sinal e que faz ligação com outro estado. Achei fantástica. Qualquer uma delas encanta. Vocês estão de parabéns. Gostei muito do resultado.
Qual a impressão o Sr. tem e qual o olhar dos estudam a internet e estão fora da região Nordeste sobre o acesso que o interior da região tem? Digo, qual a impressão que se tem e qual a impressão que o especial lhe deixou?
Acho que as pessoas sempre se surpreendem, principalmente nos grandes centros - eu não falo só de São Paulo, mas vale para Recife, para Porto Alegre, para os grandes centros - como áreas do interior estão atualizadas. Eu já li bastante coisa sobre isso, blog`s que conectam pessoas na Amazônia, que conectam em lugares distantes, às vezes com conexão precária e conseguem comunicação com outras pessoas assim. Vejo que as pessoas se surpreendem com isso, com como as pessoas estão atualizadas. Mas isso é o reflexo do nosso tempo e das conexões, das redes que a internet possibilitou. Então, a qualquer tempo, qualquer pessoa, estando as pessoas conectadas, elas conseguem obter a mesma informação. Hoje, se eu morasse em Pelo Sinal, lá no interior de Solidão, eu poderia ler o The New York Times no mesmo momento que alguém que mora em Manhattan lesse. Basta que eu domine o idioma. As pessoas estão em igualdade de condições para acessar informação. Se as informações estão disponíveis e estão de graça, estão em igualdade. Não existe mais uma elite consumidora. Basicamente ou teoricamente, não existe mais isso.
O Sr. acredita que a reportagem #NordesteEmRede pode mudar de alguma forma essa visão meio que estereotipada sobre o Nordeste?
Acho que sim. É difícil de saber o número de pessoas que vai acessar. Tem uma grande vantagem porque ela não está circunscrita somente na região onde está sendo vendido o jornal. E, se está na internet, ela é acessível desde que a pessoa domine o idioma ou não se importe de traduzir do português para qualquer outro idioma. Hoje as pessoas conseguem saber o que está acontecendo no interior da África da mesma maneira. A única fronteira que se estabelece, falo dos que estão conectados, é a barreira do idioma. E ela já não é uma barreira. Já temos disponível uma série de ferramentas para fazer a tradução. A grande vantagem é isso. No momento que eu em São Paulo acesso o Facebook, vejo a matéria que vocês publicaram, eu sei que em Portugual, em Angola, no Chile, nos EUA, em todos os lugares pessoas que entendem o idioma. Em algum momento, ela passou pela timeline deles e, em algum momento, pode ter interessado e, em algum momento, vão acessar a informação e vão compartilhar. Então, o potencial de multiplicação dessa informação é muito grande. Um trabalho como esse, que não passa batido por niguém, porque é um trabalho de mais fôlego e as pessoas vão se deter um pouco mias nele, não tenho dúvidas de que vai transitar muito pela internet. Sempre digo que a internet é um espiral. Sempre digo que, às vezes, a gente trafega em determinada direção e ela evolui em espiral e daqui a pouco a gente bate novamente por ela. Isso quer dizer que as coisas não morrem. Não é como o jornal que, se eu perdi a edição do dia anterior, só tem uma nova edição e aí são novas edições, novos temas. Esse conteúdo fica vivo na internet até o momento que vocês acharem que deve permanecer. O que é novidade para mim hoje é novidade daqui a três semanas para alguém que está na Argentina, vai ser novidade daqui a dois meses para quem mora em Recife e será novidade em dois anos para alguém que mora em São Paulo.
Refazendo a pergunta porque parti de um pressuposto de que há um estereótipo do Nordeste. Na sua visão, há um estereótipo formado sobre o Nordeste?
Acho que sim. E acho que é determinado muito pela política. O política fez um mal fantástico para o Nordeste. Percebo isso. Sou do Rio Grande do Sul e, no Rio Grande do Sul, eu ouvia muito o comentário e o preconceito com o Nordeste sempre pela via da política. Mas acho que o Nordeste se recupera muito rápido disso e não tenho dúvida que essa criação de mercado e as pessoas tendo acesso a melhores qualidades de vida, educação, o Nordeste dá uma resposta bárbara para o resto do país. Acredito muito nisso e acho - digo para muita gente - que na virada dos anos 2020 a gente vai brigar para morar no Rio de Janeiro ou no Nordeste. Tende a ganhar muito com o crescimento econômico e desde que as pessoas façam as suas partes e a educação seja contemplada.
O Sr. quer dizer que essa resposta também se dá pela inclusão digital, na medida que os nordestinos de áreas isoladas buscam e estão conseguindo se incluir também?
Essas coisas andam juntas. Não conseguem andar separadas. É a condição econômica que permite que elas se instrumentalizem e elas aproveitam a internet para buscar informação, buscar conhecimento e se relacionar com as pessoas que estão fora.
ENTREVISTA // Antonio Carlos Xavier
Professor titular em Linguística no Departamento de Letras da UFPE e pós- doutorando em Retórica Digital no Laboratório Paragraphe do Departamento de Hipermídia e Comunicação da Universidade Paris-VIII, França. Pesquisador-chefe do Nehte - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE - http://profxavier.blogspot.com/ e http://www.ufpe.br/nehte

"As pesquisas que desenvolvo indicam que o grau de criticidade das pessoas aumentou bastante"
NORDESTE INCLUÍDO
Tecnicamente o Nordeste está incluído sim. Pragmaticamente, nem tanto. Muitos nordestinos já conhecem e fazem uso da internet. Porém, ainda falta muita infraestrutura de conexão em banda larga com custos mais baixos para estimular as pessoas a usarem a internet sem restrição. O Brasil está entre os países cuja tarifa de conexão é uma das mais altas do mundo. O Ministério das Comunicações tem divulgado que os custos vão baixar, que vai universalizar o acesso e já anunciaram acordos com as operadoras de telefonia para tarifas básicas com valor em torno de R$ 35,00, o que é ainda um custo muito alto para os salários pagos no Brasil. Contudo, até agora toda esta propaganda não saiu do papel. Os governos estaduais e prefeituras têm feito muito pouco para incluir os nordestinos no mundo digital. Não há projetos em andamento nem sequer políticas claras de investimento para melhorar as condições técnicas e implementar rede sem fio gratuita em lugares públicos como praças, parques e centros de convivência como há em países como França, Inglaterra, Dinamarca, Finlândia, por exemplo. Apesar desta inércia do poder público, os cidadãos do Nordeste e de todo o Brasil não têm se acomodado e esperado pelo cumprimento das promessas dos governantes e das operadoras para se incluir digitalmente. Eles sabem que, se dependerem do Estado para isso, vão ficar fora do mundo digital por muito tempo. Este desejo de inclusão se evidencia na grande quantidade de lan houses hoje abertas por todos os lugares do Brasil em razão da grande procura dos brasileiros de um modo geral. É mais fácil encontrar uma lan house em um bairro ou cidade brasileira do que uma biblioteca ou mesmo uma livraria. Até onde o celular tem dificuldade de funcionar, pode-se encontrar uma loja para acesso à internet. O principal alvo das lan houses são os adolescentes e jovens de classe popular. O desejo de viver a plenitude de sua geração, com conta de e-mail e perfil em rede social, tem levado estes jovens a povoarem as lan houses e a ocuparem voluntariamente os laboratórios de informática, quase sempre subutilizados pelos professores e gestores escolares para se conectarem.
INTERNET x EDUCAÇÃO
As pesquisas sobre tecnologias na educação realizadas recentemente no Brasil (ITICs - Interação com as Tecnologias de Informação e Comunicação na Comunidade Escolar e TIC Educação 2010 do Comitê Gestor de Internet no Brasil - CGI.br) mostram que os computadores estão chegando às escolas, inclusive às da rede pública, mas ainda não foram totalmente absorvidos pelo professor como ferramentas de apoio pedagógico. As mesmas pesquisas indicam que o professor e principalmente os estudantes já têm um relativo acesso às máquinas e à internet. Já estão relativamente incluídos digitalmente. Falta ainda haver o casamento entre o mundo escolar e o mundo digital. A chegada da Universidade Aberta do Brasil (UAB), vinculada ao Ministério da Educação, revela-se como uma boa iniciativa do Governo federal para incluir academicamente estudantes que raramente teriam acesso à educação superior pela via da inclusão digital. Em convênio com universidades públicas e prefeituras de cidades-polo, a UAB tem oferecido cursos de graduação a distância. Desta forma, tem havido uma notável ampliação da oferta de vagas para o ensino superior em todo o Brasil. O Nordeste não tem ficado fora deste programa. Considero isto uma forma inteligente de inclusão digital pela via da inclusão acadêmica que leva, inquestionavelmente, à inclusão social do nordestino e do brasileiro como um todo.
REDES DE APRENDIZADO
Toda forma de compartilhamento de informação é potencialmente uma oportunidade de aprendizagem. A troca de informação que acontece nas redes sociais, o convívio com a diferença do outro, a sensação de ser "ouvido" são fatores que contribuem direta e indiretamente para a ampliação da bagagem cultural e intelectual de quem participa da rede social. É bem verdade que a grande maioria dos assuntos que "rolam" nas redes sociais visa à diversão e o lazer. Embora a grande maioria das tecnologias não tenha sido criada para fins exclusivamente educacionais, é possível transformá-las em recursos para potencializar a aprendizagem e a aquisição de conhecimentos. As redes sociais podem se transformar em pontos de encontros virtuais entre professor e alunos e entre alunos e alunos. O professor pode usá-las de diversas formas como, por exemplo, para continuar um debate iniciado em sala de aula, para tirar dúvidas dos estudantes, para comentar sobre livros, filmes e peças de teatros estimulando-os a conhecerem e a explorarem tais obras. Os alunos poderão ainda "prestar contas" de atividades solicitadas pelo professor na escola, podem publicar sinopses de filme, resumos de texto ou resenhas de livro e e-books sejam indicados pelo professor ou que eles tenham descobertos sozinhos e queiram compartilhar com os colegas de turma e com internautas de todo o planeta naturalmente. Enfim, as redes sociais podem ser o lugar em que eles se sintam mais à vontade para interagir com seus colegas e até mesmo com seus professores. E quando estamos em um lugar em que nos sentimos bem, tudo fica mais agradável, inclusive estudar.
TRANSFORMAÇÕES REAIS
Se entendermos educação como aprender de um modo geral, a resposta é sim, podemos classificar esses tipos de relações extra sala de aula como novas redes educacionais reais. Na verdade, o sistema de educação formal foi criado para transformar um sujeito "bruto" em um cidadão "civilizado", isto é, alguém consciente dos seus direitos e deveres condições fundamentais para se viver bem em sociedade. Se a escola conseguir apenas isso, já cumpriu seu papel. Os exemplos citados mostram que se forem oferecidas oportunidades para os sujeitos, mesmo em condições desfavoráveis, eles poderão aproveitá-las e transformar a sua realidade e a dos que o cercam. Como não podemos mais nos furtar do uso das tecnologias estejamos em Paris ou em Patos da Paraíba, ganharam o garoto de Itapajé, a menina de Francisco Macedo, os professores e as duas cidades como um todo. Uma das competências mais importantes e, por isso exigidas do cidadão contemporâneo, é a autoaprendizagem. Os nordestinos citados nesta reportagem mostraram ser possível desenvolvê-la desde cedo e obter sucesso a partir dela. A fartura de informação na rede mundial de computadores contribui notadamente para que o sujeito desenvolva mais rapidamente esta competência. O acesso à informação é a primeira condição para a aprendizagem. Sem dúvida, a internet é pródiga em dados. O esforço para articulá-las e assim transformá-las em conhecimento é responsabilidade do aprendiz e para tal deve contar com a ajuda do educador. Sonhar, desejar, querer muito, como faz o garoto que sonha trabalhar na Google, é uma atitude que precede o ato de aprender. Sem a pré-disposição do aprendiz, sem um desejo intenso de aprender, não haverá jamais aprendizagem formal, informal, convencional ou digital.
IMPACTO VIRTUAL
Não basta saber que existem escolas em outros lugares do mundo. Não basta ter acesso às informações disponíveis nos inúmeros sites de pessoas e de instituições. É preciso interagir com seus atores, ainda que a distância. Perceber que o outro o "ouviu", leu, entendeu suas ideias textualizadas e por isso responder-lhe, retroalimentar a interação é uma experiência individual ímpar. Se a interação acontece com alguém da mesma escola, de uma escola em outra cidade dentro do mesmo país, quem dirá com pessoas de outras nacionalidades? Este contato pode aumentar o desejo por conhecer a realidade do outro e assim ampliar horizontes culturais e socais de ambos os interagentes. O contato com pessoas diferentes do convívio quotidiano desperta a curiosidade por saber mais sobre elas e sobre sua realidade sociocultural. Deve o professor aproveitar todas as formas tecnologicamente disponíveis para acordar o desejo de aprender no estudante. A grande maioria destes demonstra um enorme interesse pelas tecnologias do seu tempo e um grande fascínio por interagir por meio das novas tecnologias. Por que não aproveitar este interesse e fascínio para dinamizar as aulas escolares e incentivar as trocas com estudantes de outras escolas e de outras culturas. Para a aprendizagem de língua estrangeira, por exemplo, este contato com falantes nativos é fundamental. A internet tem realizado muito bem o papel de mediador de aprendizes de línguas. O estudante tem muito a ganhar quando o professor utiliza algum artefato tecnológico para aumentar o grau de envolvimento com outros aprendizes de perto ou de longe fisicamente.
POLÍTICA SUGERIDA
"Ação afirmativa" é uma metodologia de regaste do direito de quem historicamente foi alienado de seus direitos. Longe de ser uma forma camuflada de paternalismo, com apregoam alguns, a ação afirmativa busca devolver a justiça a quem por muito tempo sofreu sem ela simplesmente por ter nascido em uma região que não conseguia ascender seus representantes ao poder. Não há nada que justifique maiores investimentos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil em detrimento das demais e principalmente do Nordeste. Se todas as regiões pagam impostos igualmente, porque não distribuir os benefícios de seu retorno também de modo equânime? Durante muito tempo o Nordeste praticamente não constava do mapa orçamentário dos Presidentes brasileiros. Está mais do que na hora de rever e compensar esta ilegalidade e imoralidade socioeconômica. Por isso, são necessários mais investimentos em infraestrutura de infovias em territórios historicamente menos privilegiados pelos governantes. São necessários grandes projetos de ampliação da cobertura de cabos de fibra ótica, um considerável aumento no quantitativo de antenas de telefonia, bem como uma maior distribuição de sinal de internet via satélite para conexão em 3G a preços mais baixos para incentivar o acesso à internet também por celular nos Estados Nordestinos. Enquanto os americanos enviam de seus celulares cerca de 40 mensagens de SMS por dia, os conhecidos torpedos, os brasileiros ainda não desenvolveram este hábito em razão do alto custo cobrado pelas empresas de telefonia para fazer prestar serviço e por isso enviam em média 2 mensagens por SMS. Subsídios governamentais, menor taxa de imposto e aumento de crédito para aquisição de computadores, notebooks, tablets e smartphones também seriam medidas desejáveis para tirar o atraso digital dos nordestinos. Além disso, os governos estaduais em parceria com as prefeituras deveriam disponibilizar conexão sem fio em alta velocidade para acesso em lugares públicos. Isto tende a criar o hábito de usar a grande rede. Todos sabem, inclusive os políticos, que a internet é um poderoso meio de comunicação. Ela propicia o exercício da cidadania quando permite que o cidadão acompanhe as ações ou a inércia de seus representantes, visualize os gastos do erário, bem como cobre dos parlamentares suas obrigações com a comodidade e o conforto de seu lar. Talvez seja esse o receio dos políticos e por isso propositadamente retardam em fazer o que sabem que deve ser feito. Quanto mais consciente de seus direitos, mais reivindicador será o cidadão. Uma vez conectado com o mundo pela internet, ele se torna um perigo iminente contra aqueles que se beneficiam da ignorância alheia nordestina ou brasileira.
INFORMÁTICA E APRENDIZADO
A informática pode ser uma grande aliada ao processo pedagógico quando utilizada pelos professores como meio e não como fim em sim mesma para educar. As pesquisas mostram que o aprendiz hoje chega à escola com a perspectiva de que o professor utilize na aula as mesmas tecnologias com as quais já têm contato fora do espaço escolar e já se habituaram a lidar com elas. Todavia, as mesmas pesquisas também nos têm revelado que não adianta tecnologizar a aula, inserir uma parafernália de equipamentos ou tornar a sala de aula um cenário de parque de diversões de última geração se o professor não mudar sua metodologia de condução do processo pedagógico. A metodologia presente em 90% das escolas brasileiras e no mundo ainda é a mesma desenvolvida no século XIX. Nesta metodologia, o professor é o centro do processo pedagógico e os estudantes meros assistentes, ouvintes que devem absorver as informações trazidas pelo mestre "sabe tudo". Os estudantes são vistos e tratados como seres passivos, que pouco ou nada têm a acrescentar ao "espetáculo" do qual o professor é o protagonista. Diferentemente do que se pensa, as novas tecnologias de informação e de comunicação não substituem os professores. Antes por sua alta capacidade de armazenamento de dados, poupam os professores do papel de fornecedores de informação e permitem-lhes assumir a função de articuladores do saber a ser construído juntamente com os estudantes. Quando as tecnologias são utilizadas para envolver os estudantes na construção do conteúdo a ser aprendido, elas de fato se tornam verdadeiras ferramentas de apoio à aprendizagem. Tecnologia por si só não melhora a educação. Já ultrapassamos esta fase em que se acreditava que "só a tecnologia salva a educação". Todavia, elas estão à espera das ações dos professores para "turbinar" o processo pedagógico contemporâneo. E é preciso usá-la com planejamento e inteligência. Do latim "inter-legere", ou seja, ler entre, o docente deve saber quando, onde e por que inserir uma determinada tecnologia para trabalhar um certo conteúdo escolar. A subutilização das tecnologias é uma realidade em muitas escolas, inclusive muitas da rede pública, que ocorre por falta de planejamento da aula, consequência da falta uma política de formação que treine o professor a usar adequadamente o potencial tecnológico das novas tecnologias. Muitos docentes até se esforçam, procuram por conta própria formação em cursos de especialização, de extensão e em eventos que tratem da temática. De fato há muito amadorismo no que se refere ao uso das tecnologias na educação hoje. Amadorismo no bom e no mal sentido do termo. Muitos mestres amam a docência e procuram por contra própria incrementar sua prática pedagógica inserindo as novas ferramentas tecnológicas em suas aulas. O amadorismo no mal sentido é proveniente dos cursos de formação de professores, os quais incluem muito timidamente disciplinas que ensinem os licenciandos a trabalharem com as novas tecnologias na sala de aula. As instituições oficiais de educação que elaboram, implementam e avaliam políticas de educação no Brasil como o INEP/MEC ainda não exigem do aspirante a professor uma certificação que comprove sua competência em lidar com as tecnologias de informação e de comunicação tal como há em países como França e Inglaterra por exemplo. Uma certificação como esta induzirá os cursos de formação de professor do ensino médio e superior a inserirem em sua grade curricular disciplinas que efetivamente mostrem como a tecnologia pode ser trabalhada em favor da educação. É preciso sair urgentemente da metodologia que protagonizava o professor para uma outra forma de trabalhar os conteúdos escolares na qual o aprendiz seja realmente o protagonista do processo de aprendizagem. Nesta nova metodologia, as novas tecnologias de informação e de comunicação têm um lugar importante que precisa ser compreendido pelos docentes do século XXI.
OLHAR SOBRE NORDESTE
É inegável os efeitos positivos do acesso à internet na vida dos já conseguiram sua inclusão digital. Os usuários da rede na região tendem a ser mais informados sobre os temas que lhe interessam; ampliaram seu leque de amigos, ainda que a distância, pelas redes sociais; têm mais comodidade na hora de conhecerem a oferta de lazer como programação de cinema, shows, bares, restaurantes; têm mais facilidade para acharem informação sobre serviços como previsões climáticas, condições de trânsito, possibilidades de cursos presenciais e a distância, palestras, aulas on-line, localização, roteirização de viagens, pesquisa de preços, procura de colocação no mercado de trabalho entre outras formas mais convenientes que a internet proporciona, inclusive ler esta entrevista a partir do seu computador pessoal, tablet ou celular, ação impossível sem acesso à internet. Do ponto de vista pedagógico, as pesquisas que tenho desenvolvido, as que tenho orientado e lido dentro e fora do país indicam que o grau de criticidade das pessoas tem aumentado bastante. As pessoas reagem mais, opinam mais, expressam-se mais pelos diversos canais digitais. Nos eixos temáticos em que pesquiso : linguagem, aprendizado e tecnologia, confirma-se cada vez mais nossa hipótese de que a tecnologia, quando bem trabalhada, favorece à aprendizagem da linguagem e de outros conhecimentos. Vinculadas a uma rede social, as pessoas leem e escrevem mais. Estas duas atividades cognitivas mantêm o cérebro em ação, deixando as pessoas mais abertas à comunicação e à compreensão do outro.
LUPA DO INTERIOR
As zonas urbanas das capitais e das cidades do interior têm partilhado dos mesmos benefícios trazidos pela chegada da tecnologia de informação e de comunicação. Há uma espécie de homogeneização das informações e uma massificação de comportamentos similares, uma vez que o mundo se tornou globalizado com o apoio da rede mundial de comunicação. Como tem sido ao longo da história, as mudanças chegam com morosidade a determinados lugares com menos concentração populacional ou menos infraestrutura. Na esfera educacional, há uma maior oferta de cursos superiores por meio da implantação da educação a distância on-line. A grande rede torna o processo de formação profissional mais democrático. Paulatinamente o cidadão do interior tem aprendido a lidar com as tecnologias e a aproveitar as vantagens do mundo virtual. Certamente, há lugares e pessoas nas zonas rurais ou nas zonas urbanas que nunca vão utilizar as novas tecnologias seja por opção, seja por contingência e nem por isso deixarão de ser feliz.
ALIADO DO PROFESSOR
Muitos professores ainda acham que o computador é algo misterioso. Mas esta visão tem se modificado. Como muitos professores estão se conscientizando de que a tecnologização da sociedade é um caminho incontornável e que a entrada das TIC na escola não é modismo nem uma tendência passageira, eles estão se acostumando à ideia de inseri-las em sua prática pedagógica. As atuais pesquisas e publicações sobre esta questão têm aumentado em grande escala. A procura por congressos e simpósios que discutam esta temática tem crescido bastante no Estado de Pernambuco e no Brasil de um modo geral. Há um notório crescimento da oferta de cursos de graduação a distância pela internet. Notamos um aumento, ainda tímido e insuficiente, do investimento do poder público em equipamentos de informática para equipar as escolas e as instituições privadas têm feito da tecnologia um forte argumento para atrair mais estudantes. O crescimento econômico que embala o país atualmente levará a um aumento no poder aquisitivo dos docentes, além do que chega em território nacional da indústria de tecnologia digital com incentivo fiscal do governo federal pode levar a uma aumento do consumo destes produtos e a consequente descoberta ou convencimento definitivo dos professores mais resistentes do potencial pedagógico das novas tecnologias. Digo potencial, porque elas podem ser levadas para a sala de aula como recursos de suporte à aprendizagem exatamente porque elas não são originalmente criadas para isto.
RELAÇÃO COM ALUNO
Um dos grandes desafios diários do professor em todos os níveis é conseguir a atenção do estudante, ou seja, fazer com que ele se interesse pela aula do começo ao fim. O quadro convencional estático é frustrante para o jovem ou adolescente que vive num mundo de muito movimento. Fora da escola há múltiplos estímulos e recursos bem mais coloridos e elaborados do que a aula cinza da maioria dos docentes. Se ele decide usar pelo menos o datashow, a atenção do estudante para o conteúdo da aula cresce automaticamente. Isto para falar de apenas um dos vários recursos disponíveis em grande parte das escolas. Porém, ele não pode usar só este recurso nem deve fazê-lo de modo meramente expositivo, porque certamente cansará o estudante. O problema é que nem este recurso tão simples e disponível muitos professores lançam mão para incrementar suas aulas. E é triste constar que, na maioria das vezes, isto acontece por pura acomodação. Um professor indisposto contagia seus alunos que passam a encarar o ato de aprender como maçante e perdulário de seu tempo. Além de uma injeção de entusiasmo, que pode vir por um incremento em seu salário e na melhoria das condições de trabalho, o professor precisa acreditar que o modelo de ensino inaugurado no século XIX, com aulas-palestras em que o mestre-provedor fala diante de uma plateia inerte já está obsoleto. Felizmente, isto está mudando. Como dissemos antes, o interesse dos docentes pelo mundo virtual tem crescido e podemos constar muitos casos de sucesso que têm sido apresentados em livros e eventos que tratam desta questão. Trata-se de um caminho sem volta. Uma nova geração de professores está chegando e com ela novas expectativas de mudanças.
SENTIMENTOS NORDESTINOS
Estou em Paris com o objetivo de reciclar conhecimento. O que me orgulho e o que me envergonho? Envergonho-me da atitude de alguns políticos nordestinos e brasileiros de um modo geral que sabem o que deve ser feito para melhorar nosso sistema educacional, mas se omitem e ou até se envolvem nos inúmeros casos de desvios de verbas destinadas à educação que certamente poderiam nos aproximar mais do desempenho educacional europeu. Apesar da crise econômica vigente na zona do Euro, não se cogita cortar verbas da educação, nem tão pouco diminuir o percentual do PIB (Produto Interno Bruto) reservado à pesquisa científica como acontece todas as vezes que se adotam medidas de austeridade econômica no Brasil. Por isso, há educação de qualidade, professores mais valorizados profissional e financeiramente, acesso fácil dos estudantes em todos os níveis a computadores e a outras ferramentas tecnológicas dentro e fora da sala de aula, por exemplo. Claro que isto não está ainda totalmente universalizado no sistema escolar europeu como se pretende e se trabalha duro para alcançá-lo, porém já está em processo bastante avançado de implantação. Aqui na França, na Inglaterra ou na Dinamarca não se discute se as TIC ajudam ou não o estudante a aprender melhor. Esta fase já foi superada nestes países, pois neles se entende que as TIC se naturalizaram à vida social, fazem parte de todos os cenários contemporâneos e certamente não podem faltar às instituições oficiais de formação do cidadão como as escolas e universidades. A discussão do momento é sobre como adaptá-las aos diversos níveis de ensino e aos vários itens do programa curricular. No Nordeste e no Brasil, ainda há muita resistência por parte de alguns gestores das verbas da educação quanto à entrada das TIC na sala de aula. Existem até mesmo alguns formadores de professores que precisam ser convencidos de que o computador não chegou para substituí-los e de que há muitas vantagens de inserir as tecnologias digitais em sua prática pedagógica. Hoje não são tantos quanto ontem, felizmente, mas ainda há. Uma nova geração de pesquisadores e formadores de professores está chegando às universidades e mudando esta realidade. Encontramos algumas universidades nordestinas bastante envolvidas com a pesquisa e a implementação de estratégias pedagógicas que aproveitem os ganhos prometidos pelas novas tecnologias intra-muros escolares. É motivo de orgulho constatar o envolvimento de professores e pesquisadores nordestinos defendendo esta bandeira, não obstante às nossas históricas dificuldades financeiras e infraestruturais. Fico imaginando se tivéssemos as mesmas condições econômicas e se gozássemos da mesma credibilidade intelectual dos europeus o quão avançados educacionalmente já não estaríamos. Disto me orgulho, da galhardia do nordestino, "antes de tudo um forte", como diria Euclides da Cunha em Os Sertões.
ENTREVISTA // Cláudio Marinho
Fundador do parque tecnológico Porto Digital (PE), ex-presidente do Fórum Nacional de secretários de Ciência e Tecnologia do Brasil e consultor de gestão da informação para empresas. Mestre em planejamento urbano (Ottawa, Canadá) e em Sistema da Informação (Atlanta, USA), doutor em Economia (São Paulo), é integrante da World Technology Network e do Conselho Consultivo do Centre for New and Emerging Markets, London Business School - http://paper.li/cmarinho
http://cmarinho.wordpress.com/

"Só há solução para o Nordeste se formos intensivos em tecnologia"
POTENCIAL PERNAMBUCANO
Falam do sincretismo baiano, mas sincretismo mesmo tem o estado de Pernambuco. É um sincretismo histórico e secular, onde se vê a convivência de Chico Science (o músico) e Ariano Suassuna (o escritor). Você juntar Caetano Veloso (cantor) e Antônio Carlos Magalhães (político) é tudo uma coisa só - que Caetano não fique zangado comigo. Mas é muito mais fácil a aproximação num estado como a Bahia do que em Pernambuco. Aqui, a dicotomia senhor de engenho e escravo gerou impossibilidades que foram superadas pela capacidade enorme que tem o pernambucano desde a invasão holandesa. A melhor imagem e citação que me vem à memória é a do historiador Leonardo Dantas, quando diz que Recife era uma babel. Em 1630, a cidade do Recife tinha 3 mil pessoas. Na Rua do Bom Jesus, tinha gente de nacionalidades distintas; judeu, gente falando holandês, francês, inglês. Então, tem uma formação que é múltipla. Do ponto de vista econômico, e, sobre essa regra, houve um domínio senhor e escravo que também foi duradouro. Quando você pega essa história, você vai entender que Chico Science e Ariano Suassuna são as duas face da mesma moeda. Em Pernambuco, tem o fundamentalismo de Ariano contra o Chico Science e o próprio atrevimento da rebeldia pernambucana, mostrado quando Chico processa tudo isso e finca a antena parabólica no mangue. Este estado é um estado que permite um Porto Digital (www.portodigital.com.br). Os 26 estados do Brasil vieram ver o Porto Digital, mas não conseguem replicar as condições daqui. É uma aliança de uma classe média, do governamental, não-governamental e universitário. O Porto Digital existe porque é em Pernambuco. Exatamente esse lugar é o que tem o maior potencial de aproveitamento da internet como ela é hoje.
CAPITAL HUMANO
É ilusão achar que educação é solução para tudo. Se você antecipa e aumenta a oferta da educação você pode errar e errar muito porque a economia pode não estar demandando aquilo que se está formando. Temos um problema em oferta e demanda em questão de recursos qualificados, a ponto de eu achar que a solução é de importação de capital humano sem nenhum preconceito. É um assunto tão importante esse da importação que até Obama (o presidente dos EUA, Barack Obama) está envolvido com o tema. Hoje, quantos de Pernambuco estão na Microsoft? Já são quase 40 pernambucanos. Ora, são os melhores cérebros que nós tínhamos aqui porque eles, da Microsoft, escolhem a dedo. Você me pergunta se é uma quantidade representativa, eu digo que a participação de Pernambuco é a maior entre todas do Brasil.
SINÔNIMO PARA A WEB
A internet como ela é hoje é o espaço da diversidade. As plataformas que estão sendo criadas, como o site de relacionamentos Facebook por exemplo, são facilitadores do encontro dessa diversidade. A internet como espaço de diversidade na sua fase atual tecnológica, como plataforma, é também excelente espaço para a competitividade. Na rede, as disputas de plataformas como Orkut e Facebook e outros, são disputas pelo tempo. O tempo é o recurso mais escasso que o cidadão tem.
INSERÇÃO DIGITAL
Os usuários do interior, com certeza, estão na lan house. O cidadão do interior nordestino está muito além do que eu ou você pode imaginar que ele está. Até por uma concessão ou necessidade que não seja presunçosa, nós deveríamos imaginar que estão sabendo mais do que a gente imagina e do que seriam capazes. Esse novo ambiente de formação do conhecimento na fase atual é extremamente rico em sugestões de formas de aprendizado. Isso me faz lembrar que nenhuma das nossas iniciativas formais de educação chega junto do potencial que a internet já está se aproveitando, independente de qualquer iniciativa. Quando o governo, ou qualquer outro projeto, tenta chegar junto de um fenômeno tão explosivo quanto esse da lan house, com todas as suas tensões políticas e externas, temos uma das coisas mais contraditórias que se pode existir: um projeto de inclusão digital extremamente atrasado. Faço um projeto com Cláudio Moura Castro. Ele acompanha essa história da área de educação e mostra que tudo que tentamos fazer com informática na escola é um fracasso. A gente vê que não consegue segurar por 15 minutos um menino na frente do computador. Tudo foi feito errado. As regras do jogo, o currículo, a qualificação, a requalificação. Imagine o que é professor da escola pública, com suas deficiências reais de salários, de formação dela própria, de sindicalismo estreito - que é defensivo e conservador - imagine essa máquina querendo ensinar informática ao menino. Quando o professor consegue chegar a ele, o menino já saiu, já foi para a lan house.
LAN HOUSES, O FENÔMENO
O fenômeno mais democratizante, mais significativo nos anos recentes - para o bem ou para o mal - é o da lan house. Os meninos estão vendo sacanagem, jogando assim e assado mas estão na realidade se alfabetizando digitalmente numa velocidade que a escola não consegue fazer. Estão se habituando a tratar das coisas novas que surgiram nessa área de conhecimento, relacionando-se com pessoas de outros lugares. Eu mesmo fui de interior até meus 17 anos. A escola como era tinha excursões e visitas técnicas. Vivi isso na minha geração e essa era a possibilidade que se tinha de se fazer correspondência. Agora, com a internet, mudou tudo.
TRÊS REVOLUÇÕES
Do jeito que vai a reindustrialização pernambucana, a gente corre um sério risco de pensar que vai ter que reinventar a roda. Vai ter que palmilhar todo o percurso da industrialização brasileira, como se isso fosse possível. Estamos tendo um enorme desafio de ter de enfrentar as três revoluções industriais ao mesmo tempo. Estamos no topo da revolução, em termos de serviços. Vai chegar finalmente a ferrovia do século 19, que vai chegar ao litoral. A petroquímica vai impactar o setor têxtil, que é da segunda revolução. Está tudo acontecendo ao mesmo tempo, mas as pessoas têm de ter consciência de que acontece no estado da arte as exigências tecnológicas de competitividade dessas indústrias são enormes do ponto de vida da gestão e intensidade tecnológica.
RODOVIA DO FUTURO
Se governar era construir rodovia no começo do século, governar hoje é fazer banda larga. Falando de União, hoje o programa da banda larga é populista. Não tem visão econômica e eu não estou usando palavra pejorativa. Ela é uma extensão da política social no Brasil hoje. Isso é prejudicial ao país. Ela não se incorpora à agenda econômica e, portanto, ficará com orçamento marginal. Para poder se incorporar à agenda econômica, era fazer um Belo Monte. A política de inclusão digital tem de entrar na agenda econômica. Será muito mais fácil de ser executada. É aumentar a força de negociação do governo com as operadoras, investir em dinheiro e acordo firmado com cada uma delas, por exemplo. Se você faz isso, pense no que digo sobre as lan houses: as lan houses cobram R$ 1 por hora. É um modelo econômico virtuosíssimo porque ninguém coloca internet a R$ 1 por hora em nenhum lugar do Brasil. Então, era colocar a estrutura de banda larga em todos os rincões em Pernambuco e do Nordeste. Não é caro. Faz-se uma revolução econômica e social se a gente colocar estrutura de internet.
AGENDA ECONÔMICA
Eu tiraria o projeto de inclusão digital da agenda social do governo. Simples não é, mas é extremamente importante sair da agenda social. O problema é a infraestrutura econômica do futuro. Não há nenhuma possibilidade de sairmos do atraso sem aceleração pelo conhecimento, pela tecnologia. A pobreza nordestina secular é um acúmulo de descaso regional e governamentais, de distorções do sistema econômico. Só há solução se formos intensivos em tecnologia. Não há como acelerar e o Nordeste engatar se não investirmos em tecnologia dura. O sentido de tecnologia de aprendizado, compreensão das mídias, de gestão das escolas, dos governos, das empresas, dos projetos públicos privados. Me refiro também à tecnologia dura. Vai atacar epidemias, você hoje tem condições de monitorar em tempo real por onde está avançando a dengue e mostrar o tempo de resposta. É tecnologia de gestão, de recursos público. E acho que as pessoas não tem consciência disso: temos uma sociedade urbana, 87% das pessoas vivem em áreas urbanas. Minha sugestão de política pública é colocar na mão do cidadão do interior massivamente essa plataforma de internet banda larga. Vamos mudar de forma assustadora o panorama do interior. O que podemos fazer? Chegar com a estrada do conhecimento, que é a fibra ótica em todas as lan houses, em todas as escolas, wifi para todo mundo. Disso surge, com certeza, uma nova economia com dois a três pontos percentuais acima do que a gente está vendo.
ENTREVISTA // Alexandre Barbosa
Coordenador Executivo e Editorial do Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação e da Comunicação do Comitê Gestor de Internet (CGI), que reúne informações da internet no Brasil e conta com o apoio e participação do Governo Federal, de universidades e do setor empresarial - http://www.cgi.br/
http://www.cetic.br/
DIFERENÇAS REGIONAIS
A pesquisa do Comitê Gestor da Internet sobre uso das tecnologias (http://www.cetic.br/tic/2010/index.htm) revela que o acesso à tecnologia de informação, sobretudo quando se fala em internet banda larga, reflete a desigualdade regional no Brasil. Quando a gente olha os indicadores sociais e econômicos, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), vê que a geografia econômica do país está muito pensada no Sul e no Sudeste. Ora, no Nordeste temos a segunda maior população e isso não se reflete nos indicadores econômicos e sociais. Vemos no IDH, por exemplo, que a taxa líquida de analfabetismo - que é você ter as crianças na idade escolar certa - se reflete também no acesso ao computador e à internet. Então, concluindo, o Nordeste e o Norte têm os piores indicadores regionais de acesso à tecnologia. Ou seja, os índices de penetração de banda larga e do número de computadores no domicílio são piores nessas duas regiões.
NE NAS REDES

É importante pensar: Como o número de usuários é grande no Nordeste e o número de domicílios é baixo, onde que essas pessoas estão acessando a internet? Nas lan houses. O percentual da lan house no Nordeste é relevante. Veja esse dado importante que ainda não está nas pesquisas: você olha os ponto de cultura do país, de teatro, cinema, mas percebe que há uma concentração muito forte deles no Sul e Sudeste. No entanto, a penetração de lan houses Nordeste e Norte é alta. Significa que esses estabelecimentos podem funcionar como estabelecimentos de inclusão social e cultural também.
POR MAIS PROVEDORES
O papel da lan house no Nordeste e no Norte é muito mais importante que no Sul e Sudeste. Isso é um dado da pesquisa TIC Provedores, que o CGI lançou em 2010 (aqui). Existe um dado de provedores que é o de densidade de provedores por 100 mil habitantes. Nesse caso particular, temos de novo a quantidade de provedores nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Nordeste e no Norte, tem um provedor para cada 100 mil habitantes. Menciono só para mostrar a discrepância regional do ponto de vista econômico, social, cultural e educacional também.
POTENCIAL DA REGIÃO
Temos um indicador que é de rede social que nos aponta um uso muito equilibrado das redes, independente da região geográfica, da faixa etária e condição social. Ele mostra que o brasileiro está inserido nas redes sociais, principalmente nos sites de relacionamento como Facebook e Orkut. No Nordeste, a maior parte da população que usa a internet está numa rede social. Então, nós temos 75% dos internautas brasileiros usando pelo menos uma rede. O Nordeste é o líder nesse indicador. Tem maior proporção de internautas nas redes. Foi um indicador que me surpreendeu porque está acima das regiões. O cidadão do Nordeste é muito ativo nas redes. Isso mostra o potencial que você tem na região. Na medida que aumenta a banda larga nos municípios, pode-se ampliar o impacto social e econômico porque você já tem uma região muito ativa.
ESCASSEZ DE PESQUISAS
Existem alguns estudos acadêmicos para avaliar os impactos econômico e social da internet, algo mais macro do próprio Ipea (Instituto de Pesquisas Aplicadas), que faz estudos do impacto da banda larga no Produto Interno Bruto (PIB). Mas concordo que ainda são muito limitados e é um tema a ser estudado com maior amplitude.
CELULAR COMO FERRAMENTA
Não tenho nenhuma dúvida de que o celular é um instrumento de acesso, mas fica muito restrito às classes A e B. Hoje o uso de celular para navegar é muito caro e inacessível para classes A, B e C. O uso de internet pelo celular fica muito estagnado e está entre 5% e 6% dentre usuários de celular. No entanto, quando quebra por classe social, vemos que na classe A, B está estável. A classe C cresceu muito pouco e as classes D e E tiveram aumento praticamente inexistente nesse item da pesquisa do CGI.
AUMENTO DE USUÁRIOS
A ajuda do governo está em curso e é claro que a gente queria que os resultados dessas pesquisas fossem mais rápidos. O plano de banda larga já foi baseado nessas nossas pesquisas. Acho que o plano de banda larga visa acelerar nas regiões mais carentes. O resultado não é tão rápido, mas acredito nessa direção. Primeiro, precisamos fomentar mais provedores. Temos de estimular que novos provedores surjam porque a lógica do mercado de internet é muito concentrada. Hoje, 80% dos usuários estão concentrados em poucos provedores. Muitas cidades sequer têm acesso à internet. Uma das sugestões para a ampliação do número de usuários pode ser a redução de tributos. Mas não só para a internet. A questão tributária no Brasil é algo muito urgente porque a gente precisa produzir mais competitividade. Hoje, a maior barreira para a posse do computador ainda é o custo. Então, uma das ações seria essa, validando a dinâmica do mercado para reduzir o preço, ou dar algum tipo de fomento, de regulação, que permita mais oferta, ajudaria muito.
ENTREVISTA //
Elvis Narciel
Secretário de Ciência e Tecnologia de Tauá, cidade do Sertão do Ceará premiada nacionalmente pelo investimento
continuado em soluções inovadoras que usam a internet como alavanca
desenvolvimentista http://tauadigital.net/ ehttp://www.taua.ce.gov.br/
"Tecnologia em cidade pequena é mais barato e melhor que qualquer e projeto estruturante"
DO PROVEDOR AO BODE FONE
Quando começamos com o projeto da cidade digital, surgiram muitas críticas. Ninguém pensava nisso. Então, as oportunidades foram aparecendo e a população entendendo a necessidade desse tipo de investimento. A atual preocupação da gente é como promover um modelo que tenha continuidade nas gestões futuras. Temos um pacote de internet diferenciado, temos cursos de computação para que o jovem ganhe direito e crie soluções para a própria comunidade, temos o sistema Voip sendo usado em projetos como o Bode Fone, temos uma proposta de modelo ampliada… Ou seja, procuramos oferecer o sinal e oferecer soluções de empreendedorismo. A maioria dos projetos é mantida pelo nosso provedor. Ele não só se autossustenta como ajuda nas despesas para o estudo ou execução de outras ideias. O provedor é resultado de contatos com empresas públicas e, com ele, custeamos a internet para cada cidadão. Antes de implantarmos o provedor, tínhamos uma empresa de provedor para nos servir. O que fizemos? Criamos o nosso próprio provedor, decidimos cobrar pelos serviços e reduzimos o custo final em 70%.
PESQUISA REVELADORA
A população começa a respirar tecnologia e ver que ela começa a fazer parte da vida cotidiana. Como a televisão, aqui o computador já começa a ser visto como essencial e essa era a nossa proposta. Ampliamos de 300 pontos de internet para mais de mil pontos, o que representa mais de 52% da população com acesso a internet. Encomendamos uma pesquisa e os resultados nos mostram que houve uma mudança de cultura. Queríamos com a pesquisa ver o que estava acontecendo em casa. O que descobrimos? Que a população já considera o computador tão importante quanto uma Tv. A quantidade de computadores comprados pela população de 56 mil habitantes, para você ter uma ideia, foi de 12.200 de 2009 a junho de 2010. É muito para uma população desse tamanho.
NA ZONA RURAL
Já pagamos 3 mil por um mega de internet. Hoje pagamos valor de mercado e, com a parceria com o programa Cinturão Digital, conseguimos ampliar em 10 vezes o link que temos. Para a ampliação dos serviços, usamos uma tecnologia japonesa que nos permite segurança de rede. É tudo regularizado pela Anatel. Usamos equipamentos transmitindo sinais para torres. A ideia é chegar em toda a zona rural como uma nuvem de internet. Mas é bom lembrar que fizemos todo um trabalho para chegar a esse ponto. Primeiro, fomos conversar com a comunidade. A preocupação das pessoas era o celular porque, na cabeça da população, o celular era o grande meio de comunicação. Eu ia lá para falar de internet e tudo que eu ouvia era solicitações para ampliar o celular. Aí, eu e nossa equipe mostramos que através da internet se podia falar no telefone. Dissemos a eles que, por exemplo, no Bodefone se pode falar ao telefone com custo mais barato. Pronto, convencemos a população aos poucos. Depois desse momento, o que temos hoje? Hoje, o uso multiplicado. Se o cidadão estiver a 100 ou 200 metros da torre de transmissão com um notebook, pode acessar a web de graça. O sistema funciona assim: a 100 ou 200 metros da torre o sinal é aberto e gratuito. Até 6 ou 10 quilômetros, que é o raio territorial dos distritos, o morador compra uma antena e coloca sobre a sua casa e capta o sinal. A torre emite sinal diferenciado para as áreas de saúde, para a área de inclusão, TV digital e sala de experimentos. Na sede do município, paga-se pelo uso da internet porque queríamos trazer mais provedores para a cidade. E conseguimos. Em 2009, tínhamos um provedor; hoje já somamos seis. É um fato relevante porque a população de Tauá quase não cresceu, mas não diminuiu como outras cidades do sertão nordestino.
FILOSOFIA DE SUCESSO
Colocar tecnologia sem fio em cidade de 100 mil habitantes abaixo é mais barato e tem um lado social e econômico maior do que qualquer outro projeto estruturante. Aqui em Tauá, a ideia de investir em tecnologia surgiu quando o vice-governador e ex-deputado Domingos Filho e a mulher dele, Patrícia Aguiar que era prefeita, pensaram no que fazer para aquecer a economia local. Apostar na indústria não dava porque não tinha oferta de água. Um projeto comercial era uma ideia, mas a cidade está muito distante de Fortaleza. Então, o Domingos Filho viu uma entrevista na TV e pensou em tecnologia da informação. É um investimento que não precisa de água, é de baixo custo e todo mundo poderia interagir com os projetos.
CONQUISTAS PÓS-TECNOLOGIA
A universidade, as indústrias, empresas como a Microsoft, a usina solar, tudo vem girando em torno dos investimentos que fizemos em tecnologia. Atualmente, temos encubadoras de negócios pensando no mercado de internet. Algumas pessoas fizeram cursos aqui e montaram cooperativas. São pessoas daqui mesmo de Tauá que fazem parte do processo de desenvolvimento de soluções. Hoje, a cidade tem projetos de internet para melhorar a mobilidade urbana e trânsito, a educação, a saúde…
EXPERIÊNCIAS NA SAÚDE
Fizemos experimentos com agentes de saúde da família usando palm tops, mas os agentes continuaram indo para as visitas domiciliares com fichas de atendimento em papel e tinham dificuldade para usar os palms. Aposentamos os palms e os meninos do Clube do Java, jovens que têm em média 17 ou 18 anos, desenvolveram o sistema para os netbooks que estão sendo preparados para os agentes de saúde. Entramos agora em outra fase, essa muito mais difícil do que a solução tecnológica. É a adaptação dos agentes de saúde com o novo instrumento de trabalho. É algo muito importante a salientar porque a questão não é só o curso de informática. Passamos por todo um processo. Convidamos os agentes e eles deram primeiro as opiniões deles sobre o que vai funcionar, num processo em que eles também passam a entender a importância da novidade do novo sistema. Pensamos nisso para evitar que ele receba o netbooks e não consiga usar o sistema. Depois, convidamos os meninos dos nossos cursos de formação profissional para elaborarem o sistema. Começamos a preparação, a capacitação dos agentes... Vai ser uma mudança grande para os agentes de saúde, mas também o município todo vai ganhar muito em qualidade da informação e na melhoria dos serviços oferecidos de saúde oferecidos às famílias.

ENTREVISTA //
Ana Brambilla
Pesquisadora de mídias digitais, é pós-graduada em Comunicação e Informação, Jornalismo digital e colaborativo pela Fabico - UFRGS e coordernadora do ebook Para entender as mídias sociais. Jornalista, atualmente mora em São Paulo e é editora de Mídias Sociais na Editora Globo. Já exerceu a coordenação de Social Media do Portal Terra. http://anabrambilla.com/blog/
"As ofertas sociais e de acesso são menores e isso pode gerar uma busca maior pelos instrumentos de comunicação"
INTIMIDADE BRASILEIRA
A inclusão digital no Brasil está num processo avançado. Temos que observar não só os aspectos técnicos, mas os sociais. Por exemplo, falando das questões técnicas, vamos considerar o potencial de compra e de consumo. Temos visto cada vez mais famílias com acesso ao hardware, ao equipamento, e não só ao equipamento como também à conexão banda larga. Nesse aspecto, a gente consegue ver um avanço na rede digital, portanto na inclusão digital. Mas um aspecto que fortalece isso é a questão da intimidade que o brasileiro está desenvolvendo com o ambiente online. Então, aquela ideia que se tinha de que havia medo de pessoas idosas, por exemplo, de participar das redes praticamente não existe mais. Ou esse medo vem diminuindo ou tende a diminuir. Isso se dá principalmente pelo fortalecimento do uso. Nessa hora, a gente lembra que o Orkut ajudou muito na convivência online.
AMBIENTE PÚBLICO
A rede social de forma bastante ampla ela é muito usada para aproximar pessoas e para contatos informais. Parece que, quando a gente quer tirar da rede social esse olhar mais cidadão, algumas pessoas torcem o nariz. Dizem 'ah, mas na rede social só tem bobagem, as pessoas usam para namorar ou conversar bobagem'. Acontece que toda essa conversa se dá num ambiente público. E, uma vez que está ambiente público, também está disponível para empresas e para a sociedade. Então, a gente está sendo monitorado tanto por governos quanto por empresas. E eu falo de monitoria de forma mais tranquila. Não é uma monitoria de forma perversa, é justamente para detectar hábitos de consumo e pensar em quais os novos produtos podem ser criados ou quais as novidades e a aceitação dentro de uma sociedade. Ou seja, mesmo numa conversa informal, a gente acaba se comunicando porque essa comunicação é com outros setores formais.
POTENCIAL RECONHECIDO
Com certeza o brasileiro já se deu conta desse potencial das redes sociais, principalmente quando se fala em reclamar de um serviço ou de um produto. Hoje em dia a eficiência de uma reclamação postada na rede social é bem maior que uma reclamação registrada no Procon ou através do 0800. Cientes disso e de como é possível explorar as redes sociais, as empresas acabaram contratando os call centers não só para atender os telefones, mas para redes sociais. Então, já se fala hoje em dia em SAC 2.0, se vê perfis no Twitter, como o Bradesco, o Santader e outras marcas que têm perfis dedicados exclusivamente para se relacionar com o público.
INTERNET X NORDESTE
Eu vou te confessar que meu olhar não pode ser tomado como parâmetro porque eu não conheço a região. De fora, eu tenho consciência de que pessoas como eu talvez tenham um olhar muito estereotipado da situação da internet no Nordeste. A impressão que a gente tem, principalmente dos centros urbanos e eu vivo em São Paulo, com conversas com amigos e pessoas da área é que a região Nordeste, por ser uma região mais distante do eixo Rio-São Paulo, ela demora para assimilar novas tecnologias e hábitos de consumo online. Então, a gente tende a pensar, 'ah, o Orkut faz mais sucesso no Nordeste e não tanto mais no Rio-São Paulo'. Os relatos da reportagem me fazem acreditar que essa situação não é real, mas a impressão que os grandes centros têm é que a região Nordeste é muito atrasada com relação a hábitos digitais.
NORDESTINO E REDES SOCIAIS
Eu tenho muitos amigos no Norte do Brasil, que também é uma região que dá a impressão que, por ser distante dos grandes centros urbanos estereotipadamente falando, está atrasada. Pessoas do Norte e do Nordeste são pessoas que têm uma visão cidadã da rede. Agora mesmo tenho acompanhado o esforço que se tem feito para haver uma Campus Party em Recife. É um grande evento de comunicação, que acontece anualmente em São Paulo e em grandes cidades do mundo. Pela primeira vez, a Futura que é ligada à empresa telefônica, está tentando promover o evento no Recife. O que tenho percebido é que é a população usuária do Nordeste está mobilizada para que aconteça realmente no Recife. É tipo abraçar uma causa. Essa é a visão que se passa do Nordeste quando se fala do uso das redes sociais virtuais.
ACESSO DIFÍCIL IMPULSIONA BUSCAS
Concordo que as ofertas sociais e de acesso são menores e isso pode gerar uma busca maior pelos instrumentos de comunicação. Em 2003, fiz parte de uma rede da USP (Universidade de São Paulo) que se chamava Cidade do Conhecimento. Ela teve um braço em Pipa, praia do Rio Grande do Norte, e eles mandaram pessoas para lá para conectar uma colônia de pescadores. Uma pessoa bastante próxima que foi para Pipa tentava conectar com outros um orelhão, um telefone público, por meio de uma antena, conectando assim a comunidade de pescadores. Via-se que a vontade de ter acesso à tecnologia é muito grande, talvez porque a tecnologia não chega de uma forma fácil. Pelo menos nessa primeira década do século 21 foi assim.
PERSPECTIVAS FUTURAS
É muito complicado a gente pensar em igualdade em termos de tecnologia, mas em termos de hábitos de navegação e de maturidade do usuário, sim. Aí a gente tem grande chance de implementar no Brasil inteiro e ser cada dia mais semelhante. Falo de tornar o usuário esperto, aquele usuário que não vai abrir um e-mail porque sabe que aquele e-mail pode causar algum mal para o seu computador. Aquele usuário que sabe distinguir um usuário de twitter falso, é um usuário que entende a dinâmica digital. Isso independe da dinâmica da tecnologia. Isso independe da penetração da tecnologia, depende da cultura do lugar e do grau de interesse. Como no Nordeste os equipamentos e a conexão são mais difíceis de chegar, eu admito que seja estereotipada, a compensação disso é de maneira cultural. A cultura tende a igualar as regiões do país em termos de maturidade do internauta.
APLICAÇÃO DA WEB
A leitura que eu faço é que, a bem da verdade, as pessoas pensam na internet da maneira desgarrada do mundo físico. Mas esses dois mundos são complementares. Jamais a gente pode pensar na tecnologia como algo que vai substituir o contato humano, as práticas, a cultura física. Ele vai auxiliar a difundir como ter repercussão. Então, eu fico pensado na empregabilidade. Acho que é um aspecto para o qual a tecnologia contribuiu muito. Lembro sempre de uma série de programas de Regina Casé na TV. Ela visitou várias lan houses e houve um rapaz que abriu oficina de conserto de bicicleta e quando ela perguntou onde ele aprendeu a ajeitar a bicicleta e ele respondeu: 'no youtube'. Foi uma historinha que me marcou muito porque foi de maneira informal que as pessoas acabam aprendendo. O resultado desse aprendizado do internaura vai interferir na mesa dessas pessoas, na comida que elas põem na mesa. Isso é um fenômeno social que vai muito além da tecnologia.
BOA NOTÍCIA
É uma tremenda boa notícia essa de as pessoas estarem fazendo uso da internet, desde que a web esteja sendo bem aproveitada. Às vezes, as pessoas demonizam a internet. Lógico, tem pedofilia, pornografia, tem hackers que entram em conta, sites. Temos isso porque é um ambiente humano. Não é porque tem coisas negativas que vamos deixar de usar. Não é porque existem ladrões e assaltantes na rua que vou sair para rua. Saindo para rua, tanto posso encontrar o ladrão, como posso encontrar o amor da minha vida. Então, na internet, tem pedofilia? Tem. Mas tem muita oportunidade para eu aprender, para eu melhorar e quem sabe até para eu evoluir.
SOBRE A REPORTAGEM
Não conhecedora profunda da realidade do Nordeste, é uma surpresa descobrir por meio dos seus relatos que a região está nesse grau de inclusão. E é uma surpresa que me deixa muito feliz, de verdade, porque eu venho de uma outra região, a região Sul, que é uma região que encontra certa facilidade tanto para tecnologia quanto para aprendizado, para créditos e outros aspectos como grau de instrução, faixa salarial, renda per capita. É uma região mais privilegiada e estamos nesses aspectos muito próximos de São Paulo. Por isso, nessa hora a gente vê o Nordeste se colocando de maneira tão avançada, certamente é uma surpresa.
ENTREVISTA // Sebástian Gerlic
O argentino Sebastián Gerlic é presidente da Ong http://www.thydewa.org/. Foi um dos idealizadores do portal www.indiosonline.net - a mais bem sucedida rede indígena virtual do Brasil, fundada em 2004 no Nordeste e que hoje reúne mais de 32 povos e cerca de 800 voluntários. Ex-publicitário, Sebastián gosta de ser chamado de empreendedor social. Continua com novas ideias que ligam tecnologia e índios. Há 18 anos no Brasil, ele mora na Bahia, de onde falou com o Diario para esta entrevista
“A medida do sangue e da alegria, se é sobre um tema alegre ou triste ou sobre uma visão apocalíptica do futuro, são os índios que escolhem escrever”
DIFERENCIAL DO PORTAL
O portal congrega várias etnias de muitos locais e outro diferencial máximo da rede é que os próprios índios estão postando as notícias. Se você me diz `ah, mas tem o site de Eliane Potiguara´. É, mas nele tem uma pessoa postando, tem um assessor de imprensa. Existem outros de figuras importantes que têm o blog, mas o www.indiosonline.net tem mais tempo no ar e com um maior número de participantes. Tem pessoas como Jandair Tuxá, de Rodelas (BA), que saíram de universidades estão postando com frequência, há a interação entre eles e outros índios e uns comentam as notícias dos outros. Isso vai parar na Funasa, na Funai, no exterior e acho que tem repercussão e promove um resultado direto nas lutas. Não é só uma foto bonitinha dando um beijo no beija-flor. Os caras denunciam que o medicamento está vencido, que há tortura de índios…
NASCIMENTO DA IDEIA
Acho que utilizar a palavra idealizador para mim é forte. Gosto de uma palavra mais suave. Acho que canalizamos o que já estava aí. Já tinha um número grande de indígenas querendo usar a internet e ter experiências. Então, buscamos orçamentos, mas há um coletivo de pessoas que já vinham trabalhando com vários povos. Tínhamos trabalhado essa história de protagonismo indígena e apropriação de tecnologia há alguns anos porque temos um projeto que seria o irmão mais velho da rede. Ele era voltado para uma coleção de livros, e se chamava Índio na visão dos índios. Já íamos nas aldeias, já passávamos máquinas de fotos entre eles, emprestávamos computador para fazer livros. Foi em 2004 que nós demos um salto e um impacto para ampliar a abrangência. Aí, pensamos que todo tipo de trabalho teria um tipo de repercussão bacana. Já tínhamos lançado o livro e lançamos a rede. Então, a rede nasceu antes, na verdade.
MÉTODO DE INCLUSÃO
Fomos apropriando as tecnologias junto aos povos. Primeiro usamos a máquina analógica, depois a digital. Primeiro, a fita cacete e depois o gravador digital. Foi um processo que depois explodiu nas redes, uma necessidade dos índios. Para mim, foi uma rede que nasceu da demanda social e acho que a demanda é de ambos os lados. Os índios querem colocar a voz no muno e a sociedade também está interessada em saber se existem mesmo esses índios. Era uma demanda latente que foi canalizada. Tinha índios querendo gritar seus problemas e também um bocado de menino da escola querendo pesquisar sobre o tema e que antes não sabia onde procurar porque aquela coisa de que o Brasil foi descoberto e que os índios comem caça não colava mais. Acho que tinha um brasileiro sedento da realidade indígena e a gente casou as duas coisas, o índio querendo falar de si e o Brasil querendo descobrir sobre eles.
INCENTIVO IMPORTANTE
A gente começou a publicar os livros em 2001, começamos a facilitar oficinas de expressão criativa e apropriação das tecnologias. Em 2004, demos um salto para esse projeto com o apoio do Governo da Bahia. Tivemos o apoio da lei estadual de cultura e a gente já tinha feito livros com o patrocínio do antigo Bombreço. Foi quando a gente chegou ao Bombreço e disse que, além de fazer o livro, queríamos fazer um projeto de internet. Como tínhamos três ou quatro anos de sucesso com livros, o cara embarcou. Mas, se não tivesse esse projeto anterior e não tivéssemos conhecido um financiador…Foram, então, seis meses de projeto piloto via governo da Bahia. Aí, veio um crescimento com a relação estabelecida com o Ministério de Telecomunicações e a história do centro de cultura viva. Os indígenas ficaram super felizes porque o projeto passou de um piloto para algo de três anos.
ANTES E DEPOIS
Começamos com poucos povos. Na Bahia, com os Tupinambá e Pataxó Hã hã hãe, os Kiriri e os Tumbalalá; de Pernambuco, os Pakararu; e, de Alagoas, os Kariri Xocó e os Xucurus Kariris. Hoje, são 32 etnias e mais de 800 voluntários. Em termos de evolução e conquista o que posso dizer é que demos um salto enorme porque, na primeira formatação, entendi que estava promovendo um projeto cultural. Tipo, os jovens vão aos velhos e tiram fotos, promovem o resgate dos povos, fazem o fortalecimento da cultura. Tínhamos a ideia de que íamos promover o diálogo e a paz quando a gente propôs o lado cultural. Mas, quando a gente levou as máquinas, houve uma apropriação e um novo rumo. Os indígenas encontraram o lado da cidadania. Então, era uma coisa simples, mas que eu não tinha pensado no potencial. Eles começaram a regularizar o CPF, a fazer censos escolares, a se queixar da merenda que não chegava, a entrar no portal da transferência e saber da grana que não chegou. Começam a perceber que não precisam ir a Brasília para se queixar porque podem ir direto a um senador. Então, reconheço assim que eu dei o pontapé inicial - tipo, vamos para a cultura. Os caras deram um pontapé mais forte, tipo vamos para a cidadania. Nós acompanhamos a situação e trabalhamos muito em torno de direitos. Hoje, acho que o conteúdo mais forte que o portal tem em número e peso e resultados tem a ver com cidadania e direitos. Foi uma surpresa o encaminhamento que foi dado.
PROJETOS
Temos mais dois projetos relacionados aos índios e à tecnologia. Um deles é www.indioeduca.org que tem a participação do Nordeste, com os colaboradores eventuais e que está há seis meses em andamento; e outro projeto que tem a ver com Nordeste e que tem a ver com o público que começou a brincadeira na época do IndiosOnLine, em 2004, que é o www.risada.org. O Risada é um portal para trocas e vendas de objetos, que é bem bacana. O projeto tem sete meses, mas o portal está no ar só há um mês, com duas ou três vendas. A partir dele já se tem muita discussão sobre cultura, tecnologia, gestão compartilhada. Antes, tratávamos de direitos humanos, cidadania, mas nunca pensávamos em vender. Acho que o Risada é o único portal brasileiro de venda de artesanato indígena interétnico, vamos dizer assim. Existe um povo com portal, um blog, mas ninguém conseguiu fazer toda a cadeia virtual como a gente faz.
DIFERENCIAIS DE POVOS
Todas as tribos têm características diferentes. No uso da tecnologia, umas são mais tímidas e outras mais ousadas. Isso tem a ver às vezes com a história da etnias e tem as lideranças do momento. As lideranças do momento não são os caras da Funai porque em alguns lugares lamentavelmente os índios estão tímidos porque sofrem repressão institucional. A Funai diz: "Se você escrever que eu roubo, eu lhe mato". Aí, tem lugares que o cara escreve e tem lugares que o cara não escreve. Tem de tudo, tem lugar que tem coragem de denunciar o roubo da madeira e a pactuação do Ibama, tem lugar que não tem coragem para isso.
MUDANÇA ADMINISTRATIVA
Em 2000 a 2004, a gente circulava fazendo livro. Depois, circulava fazendo a conectividade. Aí os índios estavam se destacando e fizemos com que eles mesmo circulassem. Era um projeto nosso dar autonomia e sustentabilidade a eles. Era um passo que a Thydêwá queria dar. A Thydêwá não coordena mais. Em meados de 2009, a gente ganhou um prêmio de mídia livre importante e a gente vinha pensando na independência. Aí, nesse ano, os índios começaram a fazer a gestão de recursos com autonomia total e começaram a circular nas tribos. Como vão e se vão fazer eventos não é mais a instituição que faz isso. A instituição formatou a ideia, deu um start, fez o acompanhamento e hoje somos parceiros deles. Como parceiros, temos feito outros projetos que sabemos que fortalecem a Rede ÍndiosOnLine. São com atividades paralelas, tangenciais. Por exemplo, esse nosso projeto novo, o Risada, 90% dele é formado por Índios online. Quando os índios falam de economia solidária, também estão trabalhando o lado índios online; quando a gente faz campanha de paz, a gente vai numa comunidade e avisamos ao ÍndiosOnline e firmamos uma parceria.
RESULTADO COLETIVO
Acho que a maior mudança que vimos está relacionada à redução da invisibilidade. Os índios estavam sempre ofuscados, quase ninguém falava dos caras, quantos são, onde estão, se vivem ou se não vivem e a gente criou essa rede e deu um salto. Eles conseguem ser mostrados para um pedaço do Brasil, para um certo número de pessoas. Demos voz a um grupo dos mais excluídos, mais afastados. Houve uma mudança comportamental. Na hora que o índio se vê protagonista para o futuro, que a foto publicada ou a matéria dele deu resultado, a auto-estima levanta, mas o que muda é a realidade da aldeia. Na hora em que o cara consegue que a merenda seja regularizada, tem uma melhoria na merenda escolar. Mas o melhor é eles perceberem que lutar por injustiça pode dar resultado e que vale a pensa investir na formação social.
EXPECTATIVA DOS ÍNDIOS
Eles centralizaram a problemática na questão da terra. Sem terra, não tem educação, saúde, cultura nem nada. Geralmente, é qualquer bandeira de qualquer comunidade indígena. Embora a gente trabalhe com livrinhos, com internet, a demanda da terra chega até a gente. Ficamos pensando: Como a internet, os livros pode ajudar na retomada dos territórios? Hoje, acho que há vários tipos de demandas. Se você perguntar aos índios, vão falar de infra- estrutura porque em geral todas as comunidades têm péssima eletricidade e alguns compram computador e, tempos depois, enfrentam tantos picos de luz que não tem fonte que resista. As comunidades são rurais e toda comunidade rural do Brasil é uma bosta. Não só nos ambiente indígenas, mas em todo o Brasil. Então, a conectividade é difícil e tem também outra questão: como um cara que ganha meio salário mínimo pode optar por conectividade?
COMO ESTÁ O COPO?
Sou um cara muito crítico e acho que podíamos estar muito melhor. Tenho dificuldade em ver o lado cheio do copo. Sei que temos vitórias e um avanço maravilhoso, mas fico achando que eles poderiam fazer mais e estar bem melhor. Fico aqui com minha pressão de homem branco em cima deles. Tem pessoas que são guerreiras e pensam que se tiver que morrer eu morro, mas muitas vezes elas são massacradas pela denúncia. Mas, lamentavelmente, as injustiças são tantas que todo dia iriam contas injustiças. Obviamente, os caras precisam respirar e contar uma lenda, uma história, uma vitória, mas a vida do índio é complicada. Eu acho que a grande maioria dos índios morre de fome e o governo inventa e diz que está fazendo educação, mas não está acontecendo nada. Os projetos do governo são enfiados goela abaixo e a situação é catastrófica. No Brasil, foram 60 índios assassinados no ano passado e não tem nenhum matador julgado. Os governos estão fazendo conchavos e muitas terras de índios pertencem a políticos.
BRASIL REAL
Os índios botam seu corpo para sobreviver e morrem de bala, aí não dá para os caras ficarem todo dia dizendo que morreu um amigo de bala. Os caras também precisam esquecer dessas coisas, mas que tem um Brasil molhado de vermelho, tem. Esse Brasil está no ÍndiosOnLine. Tem entidades que fazem a cartas do número de mortos e a sociedade brasileira não sabe. Acho que o ÍndiosOnLine é um canal porque a medida do sangue e da alegria são os Índios que escolhem escrever, sobre um tema alegre ou triste ou sobre uma visão apocalíptica do futuro. É o real, cada um escreve o que quer. Não tem edição, censura, nada. É muito fresca, eles escrevem como querem e não passa por processo de cortar nada.