O Dia - 31/08/2010 -
[ gif ]
Autor: Cristine Gerk
Assunto: Pesquisa TIC
Torpedos ajudam a quebrar o gelo na paquera e evitar situações constrangedoras. Será que SMS virou a rota de fuga do papo reto?
Depois de um sábado de discussão com o namorado, a jornalista Marcela Barros, 26, acordou com a esperança de fazer as pazes com “o homem da sua vida" até o fim do dia. Mas o domingo não teve buquê de flores, piquenique no parque nem choro na porta de casa.Em vez disso, um apito no celular e o torpedo decisivo: “Realmente não dá mais para ficarmos juntos”. A mensagem encerrava o relacionamento de 1 ano e meio, sem conversa. “É covardia, eu sei que tinha vacilado, mas por SMS é brincadeira!”, reclama.
Antes o torpedo era apenas uma forma de dar recadinho rápido. Agora até piloto de Fórmula 1 usa o recurso para se livrar de situações embaraçosas. Semana passada, um mês após o GP da Hungria, quando o alemão Michael Schumacher fechou Rubens Barrichello na pista, o pedido de desculpas veio pelo celular. “Recebi mensagem dele por SMS”, contou Barrichello à imprensa. “Disseram a ele que tive a impressão de ter sido empurrado contra o muro. Ele disse que não foi o caso e pediu desculpas. Agradeci, e a vida segue”.
Segundo a pesquisa TIC Domicílios do NIC.br, dos 75% de brasileiros que usaram celular em 2009, 58% o fizeram para mandar SMS. E o número só vem crescendo. Em 2007, era de 51%, e em 2008 já pulou para 55%. “Para quem é tímido ou sofre com o ‘não’ é uma forma de se proteger. Serve também para quebrar o gelo ou evitar ser deselegante ou ficar constrangido”, analisa Telmo Kiguel, coordenador de psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Entre celebridades da Internet, a tese se confirma. Para o humorista Marcelo Adnet, o grande apelo do SMS é evitar receber uma réplica instantânea. “É mais egoísta. Você vê se alguma coisa cola e sai fora. Se não quer trabalhar, manda mensagem dizendo que está péssimo e nem consegue falar para evitar o constrangimento de se conversar com o chefe”, exemplifica. “Se não quero encontrar uma pessoa e sei que ela me procurou, mando torpedo dizendo que estou ocupado”, confessa Rafinha Bastos,apresentador do CQC. Companheiro de Rafinha na bancada do CQC, Marcelo Tas estipula regras: “Se você mandou SMS, não pode ligar ou mandar e-mail para cobrar uma resposta. Isso é uma confusão! Se optou por falar por SMS, espera a resposta por ali”, aconselha.
Se para uns o SMS é uma forma de fugir, para outros é uma forma de evitar a fuga. O humorista Helio de la Peña, do Casseta & Planeta, usa o torpedo para manter o filho em rédeas curtas: “Quando ele sai para noite, diz que a música está alta e não dá para me ouvir. Então mando um torpedo dizendo a hora que ele tem que estar em casa. Não tem como dizer que não viu!”, conta.
Arte da paquera por SMS
Para a paquera, o torpedo virou um instrumento primordial. “Uma mensagem pode mudar a sua vida, pode construir relações e acabar com elas”, exagera a publicitária Brenda Carolina, 26 anos. “Os caras sempre mandam SMS para quebrar a seriedade do primeiro contato. Difícil é responder. O texto tem que ser resumido e você precisa parecer descolada e interessada ao mesmo tempo. É quase uma arte!”, teoriza.
A apresentadora da MTV, Mari Moon usa o SMS porque não gosta de falar ao telefone: “Para mim é como um chat, um MSN. Falo de tudo enquanto faço outras coisas! O único problema é que às vezes não dá para saber se a pessoa está brincando ou se está chateada, então tenho que botar uma carinha feliz para explicar”, descreve.
Em um aspecto todos concordam: desculpas por SMS não valem. Se o assunto for sério, nada substitui a conversa ao vivo. “No dia em que perdermos o olho no olho e o amadurecimento de resolver situações frente a frente, será o dia que perderemos a essência da comunicação”, considera o apresentador Marcos Mion.
A atitude do piloto alemão foi repudiada até por quem é fã do torpedo. “Fala a verdade: o Schumacher só mandou SMS porque tinha a esperança de o Rubinho estar dirigindo na hora e acabar batendo o carro quando fosse ler!", brinca Hélio de La Peña.