Decision Report - 26/03/2009 -
[ gif ]
Autora: Celia Santos
Assunto: Indicadores
Pela primeira vez, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR ( NIC.br) considera a área rural na pesquisa sobre uso das tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil ( TIC Domicílios 2008). Essa é uma das razões do total de pessoas que acessaram à internet ter saído dos 44,9 milhões para 53,9 milhões. É bom lembrar, entretanto, que a área rural totaliza apenas 3,7 milhões de internautas. Ou seja, 15% da população rural acessou à internet em 2008. Já na área urbana, a proporção é de 38% e, no geral, somente 34% da população acessou à internet em 2008.
É um avanço. Mas também, sem dúvida nenhuma, um retrato da exclusão digital, a qual ainda não há uma política pública clara e definitiva. Augusto Gadelha, secretário de política de informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, prefere limitar-se na constatação de que os números da pesquisa convidam o governo a discutir sobre inclusão digital, considerando o fenômeno das lanhouses que ainda são responsáveis pela metade dos acessos dos internautas do Brasil. Detalhe: na área rural, 58% dos usuários de internet tem acesso via centro público de acesso pago (leia-se lanhouse).
O poder de inclusão da lanhouse é retratado quando se analisa o número de usuários de internet com até um salário mínimo(R$ 415,00): 82% só teve acesso a web, no ano passado, por causa da lanhouse. Em 2007, essa proporção era de 78%. É bom lembrar que a estrutura socioeconômica do Brasil considera que 36% da população tem de 1 a 2 salários mínimos ( até R$ 830,00) e 69% dos usuários de internet dessa faixa salarial utilizam a web por meio das lanhouses.
Somente quem tem renda familiar acima de três salários mínimos (cerca de R$ 1245,00) começa a se desligar da dependência da lan-house: 39% dos internautas tem acesso via lan-house contra 42% no ano de 2007. Para quem ganha acima de 5 salários mínimos, a proporção é de 23%.
É por isso que o uso da internet cresce mais que o uso do computador. Em 2007, o número de usuários de computador atingia cerca de 40% da população e número de usuários de internet era de 34%. Ano passado, o uso da internet atingiu 38% da população, enquanto uso do computador manteve-se na faixa de 41%.
Quais são as razões da exclusão?
Gadelha explica que os telecentros ( centro público de acesso gratuito) tem um propósito social específico voltado para escolas, enquanto a lanhouse é um negócio que resulta num fenômeno social importante para inclusão digital. Rogério Santanna, secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, reforça que os locais de acesso não devem ser comparados porque enquanto existe em torno de 6 mil telecentros, a quantidade de lanhouses é muito maior.
Ele, entretanto, ressalta que a exclusão digital retrata a ausência de infraestrutura de telecomunicações e, principalmente, o desafio de acessá-la quando há cobertura. "É o apartheid da banda larga no Brasil", profetiza Santanna.
Do total do número de pessoas que tem PC, mas não tem internet: 50% da área rural atribui ao custo elevado da banda larga e 27% à falta de disponibilidade na área. O custo elevado também é a principal razão da área urbana ter PC e não acessar a web com 54%. Já a falta de disponibilidade é razão para 16% de quem reside em área urbana. O segundo motivo do não-acesso na área urbana é porque tem acesso em outro lugar.
O secretario do Ministério do Planejamento segue o discurso de Gadelha ao sinalizar que o governo está de olho nas lanhouses, inclusive com a possibilidade de que ela seja canal da banda larga para quem não tem privilégio de obter uma renda familiar acima de R$ 4.150,00.