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Veículo:
Computerworld
Data: 22/11/2007
Assunto: IGF e W3C Brasil
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Por uma Web 2.0 e para todos
O fato do Brasil atrair eventos de importância mundial
como a reunião do Fórum de Governança da
Internet (IGF, da sigla em inglês) – grupo resultante
da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação
de Túnis-2005 –, no mês de novembro, e de
passar a hospedar o primeiro escritório latino-americano
de outra organização internacional, o Consórcio
World Wide Web (ou W3C), voltado ao desenvolvimento de normas
e padrões abertos para garantir o crescimento da internet,
mostra o reconhecimento de nossa posição privilegiada
na economia digital – ao menos, potencialmente.
O ambiente tecnológico nacional se iguala ao estado
da arte encontrado no planeta quando se trata de soluções
open source, games, aplicativos de e-gov ou Internet Banking.
O mesmo se pode dizer de nossa competência para produzir
soluções criativas nas áreas de mobilidade
ou da ousadia demonstrada até aqui no planejamento
de uma TV Digital interativa, para a qual não faltará diversidade
de conteúdo, se considerarmos a pluralidade de expressões
culturais verde-amarelas.
O desembarque da W3C em São Paulo confirma a intenção
de nossos próprios organismos regulatórios
de garantir que essa capacidade de liderança no mundo
web tenha vida longa e que o País não apenas
incorpore os padrões vigentes, mas aumente sua presença
na rede mundial e seja protagonista na criação
de aplicações intercomunicáveis e interoperáveis.
Entre as atribuições mais importantes deste
consórcio internacional, destaca-se o estabelecimento
de recomendações para a construção
de páginas acessíveis, missão que justifica
plenamente tanto interesse pelo mercado brasileiro: afinal,
como estamos lidando com as demandas e necessidades especiais
desta nova humanidade 2.0, aqui representada por um universo
de quase 37 milhões de pessoas surfando na internet,
ou ainda, pelos 112 milhões de donos de aparelhos
celulares?
Falamos tanto na web como plataforma, na exploração
do software como serviço, no interesse pela colaboração
virtual e em como essa nova geração da internet
extrapola o campo da tecnologia rumo ao da atitude empreendedora,
das idéias simples e revolucionárias, da personalização
das interfaces e da produção de informação "ao
alcance de todos", que se torna impensável deixar
que as preocupações com o bem-estar do usuário
fiquem somente no campo do politicamente correto – ou
seja, que não se tome a palavra "acessibilidade" pelo
seu sentido correto, mais próximo de "facilidade
de acesso" e nada a ver com um "favor" que
se presta a determinadas minorias.
A discussão atual é que não se
trata, apenas, de gerar igualdade de oportunidades para aqueles
a quem identificamos tradicionalmente como portadores de
necessidades especiais (deficientes visuais, auditivos, físicos) – o
que já seria uma tarefa e tanto, absolutamente necessária.
O caso é muito mais grave. Como podemos usar o mote
de "todo poder ao usuário" e pensar em conceitos
avançados como o de geração de inteligência
coletiva se estamos excluindo uma parcela considerável
da população ao não proporcionarmos
flexibilidade no acesso à informação
e na interação entre usuários, independente
da infra-estrutura de rede, software e hardware que a pessoa
utiliza, de seu idioma nativo, do país em que se encontra
ou de suas habilidades físicas e mentais?
A lista de possíveis barreiras à interação
digital apontada pelo W3C é extensa e inclui: usuários
com incapacidade para usar teclado ou mouse (ou que não
dispõem deles); pessoas com níveis variados
de dificuldade para ler textos ou compreendê-los; usuários
com conexão lenta à internet; proprietários
de navegadores web ultrapassados ou de navegadores por voz
e sistemas operacionais não convencionais; e ainda,
pessoas que estejam simplesmente em ambientes de trabalho
barulhentos, mal iluminados, ou ao volante, com as mãos,
olhos e ouvidos ocupados em outras tarefas.
Como as páginas e outros produtos online precisam
dar respostas simultâneas a todos estes grupos, há que
se observar recomendações específicas
para a superação de tais limitações,
conseguidas, por exemplo, através do emprego de equivalentes
textuais associados às imagens (o que acelera, inclusive,
o mecanismo de indexação pelos sites de busca);
de folhas de estilo que eliminam o elemento Font e dão
aos autores das páginas um maior controle sobre elas
(auxiliando quem tem problemas visuais e tornando a transferência
de páginas mais rápida); e de equivalentes
alternativos para os textos (como ícones, gravações
de voz e vídeos traduzindo o texto para a linguagem
de sinais), beneficiando os que têm deficiências
cognitivas ou surdez, entre outros.
Como afirmou Tim O'Reilly, co-autor do conceito de Web 2.0,
a revolução que vivemos reside no modo como
capturamos e coordenamos dados. A etapa seguinte seria disponibilizar
estas informações ao maior número possível
de indivíduos – inclusive aos heavy users da
Sociedade da Informação, aos que usam palmtops
modernosos em vez de terminais antigos, ou aos que têm
vista cansada ou daltonismo. Sites acessíveis também
obtém melhores posicionamentos no Google, carregam
mais rápido, são mais baratos de desenvolver
e hospedar e simples de atualizar.
Mais interessantes serão as vantagens se eles estiveram
baseados em arquiteturas interoperáveis (como a desenhada
por nosso projeto federal e-PING, os Padrões de Interoperabilidade
de Governo Eletrônico), as quais permitem que sistemas
de informação com aplicações
diferentes e desenvolvidas em épocas distintas possam
gerar e trocar dados em tempo real. Padrões já popularizados
por aqui, como o XML (eXtensible Markup Language, que alimenta
os "feeds" de notícias, por exemplo) e o
CSS (Cascading Style Sheets), são só o começo
de uma caminhada rumo à acessibilidade.
Vale lembrar que, segundo a ONU, há 500 milhões
de pessoas com deficiência no mundo e que, no Brasil,
elas representavam cerca de 14,5% da população
em 2006 (de acordo com dados do IBGE). A média nacional
de empregabilidade desta parcela é considerada baixíssima
e apenas cinco estados superam a cota exigida por lei (de
2%). A população de brasileiros acima dos 60
anos também aumenta, acompanhando a evolução
da qualidade de vida, e corresponde a cerca de 9,7% do total
de habitantes do país. Em breve, os desenvolvedores
web de hoje integrarão este grupo...
Apesar dos muitos pecados ainda cometidos no cenário
da acessibilidade digital, há notícias instigantes
e animadoras sobre o tema. Uma delas vem da Irlanda, cuja
filial da IBM anunciou a realização de um interessante
projeto com participação de estudantes e equipes
de consultores cegos de Dublin e dos Estados Unidos. A idéia é garantir
a presença dos que não podem enxergar em mundos
virtuais como o Second Life, desenvolvendo ferramentas para
facilitar a navegação, como um sistema de áudio
que utiliza sons para dar sensação de espaço
(simulando com riqueza detalhes situações como
o farfalhar das folhas, quando o internauta se aproxima de
uma árvore), informar sobre a presença de objetos
e suas posições relativas, informar as inscrições
de uma caixa de mensagens (convertendo texto em voz) ou permitir
a conversa com outros usuários do sistema.
A Itália também vem testando uma solução-piloto
de GPS para cegos (o Easy Walk) instalada em celulares com
sistema operacional Symbian, que fornece a localização
precisa do usuário a qualquer hora do dia com a ajuda
de um receptor GPS com conexão Bluetooth e um conversor
de textos.
Por aqui, a novidade é o anúncio do Ministério
das Comunicações de liberar os primeiros 7
milhões de reais do Fust para projetos de inclusão
digital destinados a usuários surdos-mudos, ainda
este ano. O sucesso de softwares nacionais como o Letra (Leitura
Eletrônica) e o Dosvox, para deficientes visuais, e
do projeto DaSilva, que avalia a acessibilidade de sites,
também nos enche de orgulho, mas não podemos
parar por aí.
E você, profissional da informação,
está preparado para construir uma Web 2.0 verdadeiramente
inclusiva e democrática? | |