Veículo: IDG Now!
Data: 14/11/2007
Autor: Guilherme Felitti
Assunto: IGF
Rio de Janeiro - Em entrevista exclusiva, Vint Cerf diz que ICANN se aproximará mais de países, mas que existem problemas mais urgentes, como IPv6.
A internet não precisa de um novo órgão
formado por governos mundiais que administrem padrões
da grande rede.
Com a veemência do responsável por liderar o
quadro de diretores do alvo de recentes questionamentos,
o pesquisador Vint Cerf, criador do protocolo TCP/IP, afirmou
em entrevista exclusiva ao IDG Now! que
não vê necessidade em descartar o ICANN em nome
de outra entidade.
Atualmente no cargo de evangelista chefe do Google ("a
média de idade da empresa deve ter crescido um ano
com minha contratação", brinca ele), o
pesquisador norte-americano está no Rio de Janeiro,
onde participa do Internet Governance Forum 2007, organizado
pela Organização das Nações Unidas.
O histórico amparo fornecido pelo Departamento de
Comércio dos Estados Unidos levantou questionamentos
sobre a influência norte-americana no órgão
que regula padrões e tem obrigações
técnicas na internet mundial em alguns debates do
evento.
Na abertura, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, chamou
a grande rede de "transnacional", enquanto Sha
Zukang, subsecretário geral para assuntos econômicos
e sociais da ONU afirmou que o ICANN funciona muito bem,
mas não acha natural sua proximidade com o governo
norte-americano, o que levou o órgão a divulgar
um FAQ respondendo a integração que tem com
os EUA.
"A internet atual é 99% operada pela iniciativa
privada, que oferece infra-estrutura, mas precisamos ter
retorno dos stakeholder, com governos, sociedade civil e
usuários em geral oferecendo opiniões e visões
sobre políticas internas", explica Cerf, citando
a palavra de ordem do IGF 2007: multistakeholder.
Na tradução literal para português, o
termo designa uma administração onde vários
participantes são responsáveis por decisões,
ou pedaços da administração. As discussões
sobre o papel futuro do ICANN parecem se encaminhar para
uma participação cada vez maior de outros países,
que hoje formam o Governmental
Advisory Committee, em que representantes de 109 nações
debatem alterações nos regimentos do ICANN
e sugerem mudanças ao quadro de diretores.
"Se fosse recomeçar para inventar um novo grupo
de internet com as mesmas implicações técnicas
do ICANN, apareceria a mesma coisa, já que as mesmas
pessoas o formatariam. Já passamos por isto tanto
em 1998 como em 2003", argumenta, destacando ainda que
o regimento interno do ICANN obriga revisões críticas
da entidade periódicas para avaliar como está seu
funcionamento.
"Não conheço outra organização
além da ONU que faça este autocrítica",
afirma, emendando que o ICANN tem restrições
relacionadas à sua própria natureza de regulamentação. "A
estrutura do ICANN não tem autoridade para lidar com
todos os problemas da web, como atividade ilegal, fraude
e abuso. Os governos terão que fazer parte deste debate
por que o cumprimento da lei é parte da obrigação
deles, não?".
Antes de conseguir encontrar um modelo de estruturação
para um órgão que não depende nem da
iniciativa privada nem dos governos, a solução
seria aproximar ainda mais o comitê com representantes
internacionais do quadro de diretores sem, no entanto, criar "eleições",
aponta Cerf.
Até lá, diz o pesquisador, o mercado de internet
terá que lidar com problemas ainda mais sérios
e urgentes, como a transição do protocolo IPv4
para o IPv6 que, por não serem retrocompatíveis,
terão que rodar simultaneamente até que haja
a total conversão dos endereços para o segundo.
Outro obstáculo enfrentado pela entidade é a
estréia comercial do sistema Internationalized Domain
Names (IDN), tecnologia cuja introdução ensaiada
em 2003 falhou "por serem muito inclusivos". Ao
permitir que todos os caracteres de línguas não
derivadas do latim como chinês, japonês, grego
e árabe fossem usados como domínio, a semelhança
entre alguns deles confundiam e afastava usuários,
explica Cerf.
"Agora, vamos selecionar e introduzir 16.000 caracteres
e estamos analisando qual deles são seguros ou não",
afirma. O cuidado não é aleatório e,
segundo Cerf, depõe
bastante pela qualidade do trabalho do ICANN, o que inviabiliza
ainda mais a hipótese de fechar a entidade e buscar
uma nova solução a partir do zero.
"Estamos operando (a internet) há 8 anos e a
rede nunca entrou em colapso", diz.