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Arquivo do Clipping 2005

Veículo:Estadao.com.br
Data: 30/05/2005
Assunto: CGI.br

O novo ciclo das redes no país

Na semana que completa 10 anos a criação do Comitê Gestor Internet no Brasil (CGI.br) faz-se uma avaliação de como estamos de Internet no país, e especialmente de Internet2, a segunda geração desta tecnologia revolucionária.

São Paulo - No dia 31 de maio celebra-se com uma festa em São Paulo os 10 anos da publicação da Portaria Interministerial no. 147 que criou o Comitê Gestor Internet no Brasil - CGI.br (www.cg.org.br). Esta entidade foi criada para guiar o desenvolvimento da Internet no país, a partir do momento quando esta deixou de ser uma atividade quase experimental, confinada ao mundo das universidades para se abrir para a sociedade como um todo. Como tal, a atividade que inicialmente era eminentemente governamental teria que adotar um modelo misto de "governança", através da criação do CGI.br, que contava com a representação majoritária de órgãos do governo federal e também de setores da sociedade civil. Este modelo tem se mantido ao longo destes dez anos, tendo sofrido uma reformulação nos últimos dois anos, para tornar mais explícito o caráter representativo dos representantes da sociedade civil através de processos abertos de sua escolha (no modelo anterior, estes representantes eram nomeados pelo governo). Esta mudança não causou descontinuidade significativa.

Talvez o lado mais visível das atividades do CGI.br tem sido a administração dos nomes de domínio usados na Internet. Cai sob sua jurisdição todos os nomes terminados em ".br". Esta administração, que conta com um amplo leque de escolhas de nomes abertas por iniciativas passadas do CGI.br, é realizado de forma automatizada pelo Registro.br (registro.br), que hoje cobra uma taxa muito pequena pelo serviço (R$30 por nome por ano). No último censo, havia mais de 800.000 nomes de domínio registrados no país.

Durante grande parte destes 10 anos, o CGI.br era presidido por Ivan Moura Campos, ex-professor de computação da UFMG, que vem ocupando uma série de cargos públicos nos últimos 15 anos, tendo servido também por 4 anos como diretor da ICANN - Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (www.icann.org), que tem a função de administrar nomes de domínio em escala mundial. Em 1995, a Internet brasileira, depois de três anos de depender de conexões interurbanas de baixa capacidade, entre 9,6 e 64 kbps, aumentou as mais importantes destas conexões para 2 Mbps, para acomodar o novo tráfego comercial. Já nos EUA, onde a rede acadêmica havia começado em 1986 com conexões de 56 kbps, aumentando para 1,5 Mbps e depois 45 Mbps até 1988, já estavam na faixa de 155 Mbps na véspera do lançamento da Internet2 em 1996. A sociedade norte-americana havia abraçado a Internet comercial a partir de 1990, e a rede originalmente acadêmica estava sendo absorvida pela comercial. A Internet2 seria o nascimento de uma nova rede acadêmica, potencialmente atuando em capacidade de múltiplas Gbps (gigabits por segundo), testada em redes experimentais ("testbeds") do início dos anos 1990.

Foi neste período que o Prof. Ivan apresentou sua visão da evolução tecnológica e comercial da Internet, numa figura largamente citada depois nos EUA, e conhecida como "o espiral de Campos" (v. www.comciencia.br/reportagens/internet/img/espiral.jpg). Esta figura está dividida em quatro quadrantes: Pesquisa e Desenvolvimento - P&D, Colaborações, Privatização e Comercialização. A cada tecnologia corresponde um espiral, que nasce no quadrante de P&D e deve evoluir pelos outros três. O quadrante P&D representa a validação da tecnologia através do seu uso numa rede experimental. O de Colaborações representa o uso em regime pela comunidade acadêmica através de uma colaboração fechada entre universidades, centros de pesquisa e possivelmente empresas de tecnologia. Já o terceiro quadrante, Privatização, corresponde à transferência desta tecnologia para uma empresa que a operaria ofertando serviço de rede à comunidade acadêmica. No quarto quadrante, a mesma tecnologia seria usada para prover este serviço comercialmente ao mercado. Toda este ciclo de evolução havia sido seguido pela Internet original nos EUA, e é representada na figura pelo espiral completo.

Em 1996, o segundo espiral (Internet2) já estaria entrando no segundo quadrante, de Colaborações, pelo menos nos EUA. Hoje em dia poderemos dizer que o ciclo Internet2 está plenamente concluído em alguns países, por exemplo, Japão e Hong Kong, onde estão disponíveis os benefícios de banda larga de verdade, significando acesso residencial em 100 Mbps, com suporte amplo para transmissão de vídeo de alta resolução (v. coluna de 24 de maio). Quanto ao terceiro espiral na figura do Prof Ivan: hoje eu diria que ele representa a tecnologia de redes ópticas comutadas por lambdas (comprimentos de onda), que sequer existia como tecnologia em 1996. Atualmente, ele é usada apenas experimentalmente, principalmente para fornecer capacidade enorme de comunicação entre pares selecionados de pontos, por exemplo, entre dois laboratórios de física de altas energias, e portanto não se estende além do primeiro quadrante.

Se aplicarmos o conceito do "espiral de Campos" ao Brasil, onde estaríamos hoje? Eu diria que conseguimos fechar apenas o ciclo da Internet original, já previsível em 1996 dado o crescimento forte já nesse ano do setor comercial da Internet entre nós. A princípio, a tecnologia que usamos hoje é funcionalmente a mesma que nessa época, com aumento de capacidade usando tecnologias já conhecidas e empregadas nos EUA no meio dos anos 1990.

Sobre os outros dois espirais - da Internet2 e das redes ópticas - como estamos? A Internet2 nos EUA é caracterizada pelo uso de conexões de grande capacidade, tipicamente entre 1 e 10 Gbps, tanto para conexões interurbanas como para acesso a estas redes de longa distância. Por enquanto, a infra-estrutura usada lá ainda é montada e operada pela comunidade acadêmica daquele país, o que significa que ainda pertence ao segundo quadrante, de Colaborações. Como já mencionamos acima, os EUA não estão na dianteira com esta tecnologia, e hoje em dia o melhor serviço comercial Internet no planeta está disponível em vários países do leste da Ásia. Nestes países, ao menos, estaria completo o ciclo inteiro do segundo espiral.

No Brasil, iniciou-se a fase de experimentação com Internet2 já no final dos anos 1990, com a criação das Redes Metropolitanas de Alta Velocidade, ou ReMAVs, em 14 cidades (v. www.rnp.br/remav). Entretanto, estas iniciativas foram apenas locais e de acesso limitado, e não chegaram a ser usadas pelo maioria dos usuários, nem destas cidades. Em escala nacional, não era possível que a rede nacional da RNP da época interconectasse em capacidade adequada as ReMAVs de cidades diferentes, pelo alto custo de capacidade interurbana de então, e, embora tenha sido conhecida esta rede por RNP2, havia quem a chamasse de RNP 1,5 por não ser uma realização adequada da Internet2 no país. Felizmente, depois de certa demora, até o segundo semestre de 2005 deverá finalmente ser colocada à disposição da comunidade acadêmica nacional boa parte de uma nova infra-estrutura de rede, que não apenas inclui as almejadas conexões interurbanas de alta capacidade, como também as redes de acesso nas cidades atendidas.

Como já mencionado na coluna de 24 de janeiro, o projeto RedeComEP (Redes Comunitárias para Educação e Pesquisa), financiado pela Finep, implantará redes ópticas metropolitanas nas capitais dos estados e em Brasília, permitindo acesso em velocidades de pelo menos 1 Gbps ao ponto de presença (PoP) da rede nacional da RNP. A última novidade é que, pelo menos para as 10 capitais de maior movimento, as conexões interurbanas mudarão quanticamente de capacidade. Interligando Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte será montado um anel de capacidade 10 Gbps. Para o Sul, haverá uma alça de 2,5 Gbps partindo de Brasília e passando por Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba para terminar em São Paulo, enquanto para o Nordeste outra alça semelhante partirá de Belo Horizonte, passando por Fortaleza, Recife e Salvador até chegar ao Rio de Janeiro. Esta nova rede foi licitada no último dia 13 de maio e deverá entrar em funcionamento em setembro próximo (v. www.rnp.br/noticias/2005/not-050517.html). Com isto, será finalmente possível realizar o transporte de aplicações "Internet2" entre instituições localizadas pelo menos nestas dez cidades, e eventualmente para o exterior.

Portanto o espiral Internet2 finalmente vai se estender até o segundo quadrante da figura do Prof Ivan, no caso do Brasil. A pergunta óbvia é quando chegará ao quarto quadrante, a fase da plena comercialização. Este assunto foi abordada na coluna de 24 de maio, e ainda não é possível respondê-la. Entretanto, acredito muito no poder do exemplo do que é possível de ser feito por um setor específico da sociedade, quando pode contar com recursos adequados. A Internet comercial decolou no país a partir de 1995, em parte por causa deste poder de demonstração da Internet montada no país pelas universidades no início dos anos 90. A transformação da tecnologia Internet2 num sucesso comercial também depende de modelos de negócio viáveis: de provimento de rede e de fornecimento de conteúdos de vários tipos. Os equipamentos de rede estão caindo de preço, e creio que já seja viável financeiramente implantar as redes de acesso de banda (realmente) larga em regiões urbanas de alta densidade populacional, como foi feito no caso de Hong Kong discutido acima, onde 40% das residências já estão na rede de banda (realmente) larga.

Finalmente, o terceiro espiral, que corresponde às redes ópticas comutadas por lambdas, ainda está na fase experimental entre nós, como demonstrado nos projetos Kyatera (www.kyatera.fapesp.br) e GIGA (v. coluna de 9 de maio de 2004). Por enquanto não é claro nem como esta Internet de terceira geração vai evoluir no resto do mundo, porém já há sinais claras que algumas das tecnologias que a possibilitam farão parte integrante das novas versões das redes acadêmicas nacionais de vários países, especialmente Canadá, EUA, Holanda, Reino Unido e da rede GÉANT na Europa. Nem nestes países fica evidente ainda como os resultados chegarão à fase da comercialização.

Enfim, a abordagem do Prof Ivan vincula o futuro da Internet comercial ao prévio desenvolvimento da Internet acadêmica. Isto evidentemente coloca uma responsabilidade grande nos ombros dos acadêmicos, que felizmente estão conseguindo dar conta do recado.

Michael Stanton (michael@ic.uff.br) , que é professor do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense e também Diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), escreve neste espaço desde junho de 2000 sobre a interação entre as tecnologias de informação e comunicação e a sociedade. Os textos destas colunas estão disponíveis para consulta.