NIC.br

Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR
CGI.br

Imprensa NIC.br

Ir para o conteúdo

Arquivo do Clipping 2005

Veículo:Valor Online
Data: 30/05/2005
Assunto: CGI.br

Apesar das restrições, Brasil contra-ataca os criminosos digitais

Na difícil e recém-declarada guerra contra o crime digital, dois fatores combinados tornam a luta no Brasil ainda mais intrincada: os parcos recursos da polícia, pelo menos em comparação com o aparato americano, e algo tão surpreendente quanto inexplicável: a aparente superioridade dos hackers brasileiros frente a seus pares internacionais.

"Os hackers do Brasil são os mais desenvolvidos do mundo", diz Rogério Morais, presidente da subsidiária brasileira da Internet Security Systems (ISS), empresa americana de segurança digital. "Eles estão pelo menos seis meses à frente dos outros criminosos no uso de técnicas e ferramentas de invasão."

Apesar dos motivos continuarem obscuros, essa desonrosa vantagem é apontada pela maioria dos especialistas e pela própria polícia. "Na desfiguração de páginas de internet, o Brasil é campeão disparado", afirma Paulo Quintiliano, chefe do serviço de perícia em informática da Polícia Federal.

A "excelência" do trabalho pode ser conferido dentro de casa. Em apenas cinco anos, entre 1999 e 2004, o número de incidentes na internet brasileira aumentou 2.337%, saltando de 3.107 ocorrências para 75.722.

Na maioria dos casos, a origem das invasões está no próprio país. Entre julho e setembro do ano passado, 25,70% dos ataques vieram do Brasil; entre outubro e dezembro, a participação brasileira foi de 29,68%. No primeiro trimestre de 2005, quando foram registrados 12.438 incidentes, os americanos ficaram em primeiro, com 27,62%. Mesmo assim, os brasileiros vieram logo atrás, com 26,14%, segundo dados do Comitê Gestor da Internet.

"O pior é que este é o número de tentativas ou invasões reportadas. Há milhares de empresas que são atacadas e nem ficam sabendo disso", observa Morais, da ISS.

Por que o o crime digital não pára de crescer? "O dinheiro está migrando para a internet", diz Ricardo Theil, especialista em investigações no meio eletrônico. Atrás dos consumidores, vão os bandidos.

Só no ano passado, o número de pessoas que compram via internet aumentou 20% no Brasil e totalizou 3 milhões de consumidores. Juntos, eles gastaram R$ 1,75 bilhão em compras on-line, um acréscimo de 47% em relação a 2003, segundo a consultoria E-bit. Isso sem levar em consideração a venda de passagens aéreas, automóveis e sites de leilão.

A tendência é de crescimento. Só no primeiro trimestre deste ano, o comércio eletrônico movimentou R$ 470 milhões no país - com crescimento de 34% em relação ao mesmo período do ano passado - e a expectativa é de que chegará a 2,3 bilhões até dezembro, o que só deve atiçar a cobiça dos cibercriminosos.

Junte-se o movimento crescente dos negócios virtuais à capacidade técnica dos hackers e o anonimato que eles imaginam ter na internet - uma idéia que não é de todo verdadeira -, e o resultado é a explosão de incidentes.

A polícia, no entanto, está reagindo. Até o fim de 2006, o número de peritos em tecnologia da informação da Polícia Federal deverá triplicar. "Atualmente existem 50 profissionais especializados", diz Quintiliano, que entrou na primeira turma de peritos, criada em 1995. "Há mais 30 na academia e outros 75 deverão ser selecionados em concurso no ano que vem."

Quintiliano concorda que os recursos são restritos e que, com o volume de trabalho atual, é difícil atender a todas as requisições em tempo hábil. Mas ele observa que a polícia já conseguiu acertar golpes certeiros em quadrilhas perigosas.

Nas duas maiores operações conduzidas pela Polícia Federal - a Cavalo de Tróia, realizada no fim de 2003, e a Cavalo de Tróia 2, ocorrida um ano mais tarde -, os policiais prenderam 110 pessoas. "Só na mais recente foram presos 77 envolvidos", informa Quintiliano. Somando os dois grupos, os policiais estimam que o rombo provocado pelos criminosos alcançou a cifra de R$ 180 milhões.

Mesmo a cooperação internacional, que era rara até pouco tempo atrás, começou a ganhar força, nota Quintiliano. Em 2003, ele apresentou em Washington, numa reunião patrocinada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), um projeto de colaboração regional. Parte das sugestões está sendo seguida, com resultados positivos, diz ele.

Como leis estrangeiras não têm aplicação no Brasil e vice-versa, ele propôs que, no caso de invasões de brasileiros no exterior, as informações sejam repassadas para a Polícia Federal, que dá continuidade ao caso, sob as leis do país. "Isso não interfere em nosso ordenamento jurídico", afirma.

Outro termômetro da situação, as empresas de segurança digital também dão sua contribuição. Na ISS, a receita no Brasil cresceu 70% em 2003 e 104% no ano passado, numa prova da demanda crescente. Nesta semana, a empresa abre um laboratório para estimular a formação de técnicos de segurança, em parceria com a Fundação Bradesco, informa Morais.

O perito Theil resume a situação: "O pessoal da lei é tão competente quanto o lado negro, mas eles estavam mais organizados. Agora, o lado de cá está se organizando também".