Arquivo do Clipping 2002
Veículo: Com Ciência
Data: 10/04/2002
Assunto: Internet
Futuro da Internet: entre
o elitismo e o computador popular
Conversação com Ivan Moura Campos
Em 11º lugar no ranking de números de computadores conectados à
Internet, segundo dados da Network Wizard, o Brasil, embora à frente
de muitos países europeus, ainda luta para democratizar o acesso a
informática no país. Ivan Moura Campos, atual coordenador do Comitê
Gestor da Internet no Brasil e Representante do Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT), em entrevista à ComCiência, afirmou que os
maiores obstáculos para a expansão da Internet, atualmente, são a má
distribuição de renda e seus efeitos diretos, entre eles o conseqüente
alto custo de computadores e das conexões para as camadas mais pobres
da população. Moura Campos esteve presente na criação do Programa
de Software para Exportação (Softex), ainda em vigor, a Rede
Nacional de Pesquisa (RNP), o primeiro backbone da Internet implantado
no País e o desenvolvimento do Computador Popular. Atualmente ele
preside a Akwan, uma das poucas empresas nacionais que produz
ferramentas de classe mundial para a rede. Embora admita que a posição
ocupada pelo país no ranking seja importante, lembra que ela reflete
a situação das classes de renda mais alta.
Na tentativa de colocar o país em condições de operar a Internet
com todos os requisitos técnicos já existentes nos países mais avançados,
tanto no que diz respeito à velocidade de transmissão de dados,
quanto a novos serviços e aplicações, o governo federal, através
do MCT, iniciou, em 2001, o Programa Sociedade da Informação (
SocInfo).
Estando o programa a meio caminho andado, o coordenador do Comitê
Gestor afirma que o patamar tecnológico das redes disponíveis para
uso generalizado pela população são uma responsabilidade da
iniciativa privada. "O governo, com recursos do tesouro, pode
induzir, ou 'abrir picadas' tecnológicas, ficando à frente do
mercado, como aliás tem sido a praxe aqui no Brasil. Por exemplo, a
RNP [Rede Nacional de Pesquisa] já está rodando IPv6 "de produção",
e o mercado ainda vai levar um par de anos, pelo menos, para fazer o
mesmo", prevê.
Inspirado em situação de crise na Internet vivida pelos Estados
Unidos em 1996, Moura Campos conta que o país criou a RNP. Ele lembra
que, naquela época, a National Science Foundation (NSF) decidira
descontinuar a operação da NSFnet, seu backbone, alegando que
"as forças do mercado" iriam operar a Internet com preços
mais baixos e maior eficiência. "Não aconteceu nem uma coisa
nem outra, os preços subiram e a rede quase entrou em colapso com o
tráfego", explicou. A comunidade acadêmica, principalmente,
pressionou a NSF para retomar a NSFnet. "Mas aí já era um pouco
tarde, as empresas privadas protestaram, dizendo que 'não se deve
colocar o dinheiro do contribuinte para criar uma atividade que
concorra conosco'. Estava armado o impasse", concluiu.
Em uma tentativa de sair desse impasse a Farnet (Federation of
American Research Networks) promoveu uma reunião que congregava as várias
RNPs norte-americanas e as empresas líderes do mercado e lideranças
acadêmicas, que Ivan Moura Campos, convidado pelo então secretário-executivo
da Farnet, Jim Williams, participou como observador.
Moura Campos conta que "após ouvir um dia e meio de apresentações,
ousei pedir a palavra e apresentei uma transparência com um desenho
em forma de espiral, recém-feito a mão, com o qual mostrava que isto
é uma processo recorrente, que deveria haver 'gerações' de
Internets, com a comunidade acadêmica liderando, em seus backbones
experimentais, a introdução de inovações tecnológicas que, após
algum tempo, estariam disponíveis no mercado". Para a surpresa
de Moura Campos o conceito da espiral se tornou, não apenas a
logomarca do evento, mas também foi incorporada no próprio projeto
da Internet 2. Atualmente a espiral é conhecida como
Espiral
de Campos.
Mas aqui no Brasil o problema do tráfego na Internet é um obstáculo
a ser superado. No caso de São Paulo, a partir de 1998 a Rede ANSP
melhorou a qualidade de acesso à Internet através do implemento de
um Ponto de Troca de Tráfego (PTT) que conectou provedores e
concessionárias, acelerando a conexão entre inúmeras redes locais.
No mês de março de 2002 a Rede ANSP fechou acordo com a Terremark
Latin América Ltda, para que a empresa opere o PTT, que deverá
acelerar o intercâmbio de informações e o desenvolvimento das
instituições do estado de São Paulo. "O acordo com a Terremark
passa para a iniciativa privada sua operação. Um PTT, por si só,
otimiza o tráfego, não muda as características de acessibilidade. A
rede ANSP tem tradicionalmente um papel de liderança nestas questões
de operação de redes acadêmicas no País, tendo também celebrado
muitos acordos importantes para a comunidade a que serve",
esclareceu Moura Campos.
No entanto, as perspectivas além das fronteiras da Rede ANSP, segundo
Moura Campos, ainda não são claras. Mas ele acha possível que haja
aprimoramento das relações entre as instituições congêneres à
Fapesp. Existe um fórum dos secretários de ciência e tecnologia, e
também o fórum das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs). O
problema é que o orçamento dessas Fundações é muito menor que o
da Fapesp.
As iniciativas não param por aí. Uma das tentativas de expandir o
acesso à Internet foi o projeto do computador popular, idealizado
pelo então ministro das comunicações Pimenta da Veiga, em parceria
com o Comitê Gestor e o Departamento de Computação da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). O programa causou furor ao anunciar
que o computador custaria cerca de R$600, havendo a possibilidade dos
consumidores contarem com linhas de crédito da Caixa Econômica
Federal, o que tornaria possível a obtenção de um computador para
muitas pessoas. Porém, apesar das insistentes tentativas de alguns órgãos
do governo, Moura Campos acredita que a indústria não parece
entusiasmada com a produção de uma plataforma tecnológica mais
barata, que deverá reduzir substancialmente suas margens de lucro.
Mas as linhas de crédito não chegaram a ser criadas, embora ele
acredite que isso ainda seja possível. "O desenvolvimento da
tecnologia do computador popular nos laboratórios da UFMG continua, e
vai muito bem. Por outro lado, as iniciativas de popularizar sua
utilização para universalização de acesso estão virtualmente
paralisada. Restam os pequenos fabricantes, ainda com chama de
entusiasmo pela idéia", afirmou.
Para Ivan Moura Campos é impossível prever o futuro da Internet no
Brasil. "Em termos genéricos, a tendência é de crescimento
continuado, dobrando o número de hosts a cada ano, como vem sendo há
muito anos. Este crescimento é ainda limitado ao mercado corporativo
e às camadas de renda mais alta da população. Evitando voltar ao
omnipresente assunto da distribuição de renda, a tendência é de
queda nos preços de telecomunicações (que poderiam ser ainda mais
baixos, se os estados não taxassem as empresas com ICMS tão alto -
em torno de 40%), assim como os preços de computadores. Estes
poderiam cair ainda mais dramaticamente com a adoção de arquiteturas
mais enxutas como a do computador popular com software aberto".
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a entrevista no site original